
Íniciamos a análise com um aviso importante: “O Prazer É Meu” (The Pleasure Is Mine AKA El Placer Es Mío, 2024) possui em sua construção a concepção do chamado “filme de arte” e, como tal, será melhor apreciado pelo público que consome obras de queima-lenta com pouca ou nenhuma explicação didática. Dito isso, prosseguimos.
O diretor Sacha Amaral – brasileiro radicado em Buenos Aires – depois de colecionar curtas bem-sucedidos, decide estrear em longas-metragens justamente com um protagonista que não faz a menor questão de saber o que quer. Enigma e libido são praticamente o sobrenome do rapaz.
Antonio (Max Suen) é aquele jovem de 20 anos que parece ter sido projetado para deixar qualquer um intrigado em menos de cinco segundos. Ele entra em cena com um charme tão automático que dá até a impressão de que o universo inteiro está conspirando para iluminá-lo — rosto bonito, movimentos calculados e uma curiosidade que ele usa como se fosse um cartão de visitas. Tudo isso misturado a uma leve frivolidade que grita “juventude em estado bruto”.
O mais curioso é que Antonio parece sincero. Sim, ele dorme em camas variadas, muda de profissão conforme o humor do dia e solta pequenas mentiras como quem distribui doces, mas nada disso parece abalar a imagem que ele projeta. Ele é bobo quando quer, irritadiço quando convém e tem uma relação complicada com absolutamente todo mundo: a mãe, Viviana (Katja Alemann), com quem ainda mora; a amiga/irmã Lu (Sofía Palomino), que funciona como caixa eletrônico ambulante; e até o amigo traficante, que o deixa vender um pouco só para não ter que lidar com ele reclamando.
Seus romances casuais — homens, mulheres, jovens, velhos, qualquer coisa que respire — orbitam ao redor dele como se ele fosse um sol hormonal. O problema é que Antonio se cansa rápido dessa devoção toda e vive em busca de um jogo de forças que o faça sentir algo além de tédio.
Para ele, tensão é oxigênio. O sexo casual, conseguido por aplicativos, não serve como válvula de escape; é só mais um passatempo. Ele experimenta diferentes níveis de intimidade com pessoas de todas as idades, sempre com a mesma fome de descobrir alguma coisa que nem ele sabe o que é. Max Suen interpreta esse caos ambulante criando a aura perfeita de um andarilho que deseja tudo com intensidade, mesmo que não saiba nomear nada.
Antonio mente, rouba, manipula e faz o que for preciso para satisfazer seus impulsos — afinal, viver pelo princípio do prazer exige dedicação. E, para alívio geral, o filme não tenta enfiar filosofia no meio disso. Amaral prefere deixar as cenas fluírem e permitir que os personagens ocupem o espaço com suas contradições.
O resultado é um filme que tem ritmo próprio, com uma composição ampla e cuidadosa, e um protagonista que você acaba adorando mesmo quando ele merece punição. Exatamente o que sentem todo mundo que cruza o caminho dele.
















