O Pior Homem de Londres (por Peter P. Douglas)

O Pior Homem de Londres (The Worst Man in London, 2023), longa-metragem Português de drama histórico, distribuído pela Fênix Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 14 de agosto de 2025, com classificação indicativa 12 anos e 130 minutos de duração.

Chamar alguém de “o pior” é uma acusação pesada — e foi exatamente esse o termo que Arthur Conan Doyle usou para se referir a Charles Augustus Howell, um negociante de arte e chantagista do século XIX. Essa figura controversa é o foco do novo filme de Rodrigo Areias, que mergulha na vida de Howell com uma abordagem que mistura crítica, ambiguidade e sofisticação visual.

A narrativa se desenrola na Londres vitoriana, em meio ao universo pré-rafaelita, onde Howell circulava entre nomes como Dante Gabriel Rossetti, Lizzie Siddal e John Ruskin. O filme nos conduz por encontros em ambientes luxuosos e decadentes, onde a chantagem e a manipulação são constantes. A trama se constrói em torno de verdades e mentiras, revelações e omissões, tudo isso entrelaçado ao mercado de arte — um jogo em que Howell atua como elo entre artistas e colecionadores.

O protagonista, interpretado por Albano Jerónimo, é apresentado como um personagem complexo, que transita entre intenções nobres e interesses escusos. Howell é tanto um reflexo do meio em que vive quanto um agente ativo de suas perversidades. A atuação de Jerónimo, aliada a um figurino que equilibra o discreto e o extravagante, contribui para tornar o personagem magnético e inquietante.

Embora Howell seja o eixo da narrativa, o filme também se abre para outras figuras históricas, com destaque para Lizzie Siddal, vivida por Victória Guerra. Em meio à densidade dramática, é com ela que o longa encontra seu momento mais lírico — uma cena em que arte, corpo e cinema se fundem, lembrando a imagem de Ofélia que ela mesma eternizou. A performance de Guerra dá vida a essa sensibilidade, espalhando sua presença por toda a obra.

A estrutura do filme, embora eficaz na maior parte do tempo, por vezes se mostra excessivamente intrincada. Algumas tramas paralelas ficam soltas, enquanto outras são intensificadas sem o mesmo cuidado. Ainda assim, mesmo com essas irregularidades, o filme consegue transmitir a essência de um mundo artístico movido por ambição, vaidade e desejo — elementos que, talvez, ainda estejam presentes hoje.

Rodrigo Areias não tenta redimir Howell, mas também não o condena de forma simplista. Ao invés disso, constrói um retrato ambíguo, onde o “pior homem” pode ser apenas mais um entre muitos que jogam o mesmo jogo. E é nesse jogo — entre arte e poder, entre verdade e encenação — que o filme encontra sua força.

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