O Olhar Misterioso do Flamingo (por Peter P. Douglas)

O Olhar Misterioso do Flamingo (La Misteriosa Mirada Del Flamenco AKA The Mysterious Gaze of the Flamingo, 2025), longa-metragem chileno de drama, distribuído pela Imovision, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 26 de março de 2026, com classificação indicativa 16 anos e 108 minutos de duração.

Pedro Lemebel, é um escritor chileno que documentou a vida queer de seu país durante a queda do regime de Pinochet. Sua obra, “Manifesto (Falo da Minha Diferença)”, serviu para esfregar na cara da sociedade homofóbica de 1986 que queer também é povo. Décadas depois, o diretor Diego Céspedes aparece com “O Olhar Misterioso do Flamingo” e basicamente diz: “Lemebel, segura minha peruca”. O filme é uma ode à vida queer no início da crise da AIDS, com direito a amor, tragédia, fofoca, transfobia e uma comunidade mineira que acredita que gays transmitem doença (“a peste”) pelo olhar — porque, claro, a ignorância sempre dá um jeito de inovar.

A trama se inicia no Deserto do Atacama, onde a poeira é tanta que até a homofobia chega atrasada. Lidia (Tamara Cortes), uma criança criada por uma família queer que se identifica como “maricons”, “travestis” e o que mais der na telha, vive cercada por amor, glitter emocional e uma comunidade mineira que acha que olhar para uma “bicha” pode te matar. É quase um conto de fadas sombrio, só que com mais delineador e menos príncipes.

Lidia foi abandonada bebê na porta da cantina e criada por Flamingo (Matías Catalán), uma drag queen maternal que faz o papel de mãe, pai, tia e psicóloga. Um dos problemas de Flamingo se chama Yovani (Pedro Muñoz), um mineiro violento que a culpa por sua doença — porque sempre tem um bofe tóxico para estragar tudo. Felizmente, Mama Boa (Paula Dinamarca) e o resto da família queer seguram as pontas, criando Lidia com amor, independência e espírito de comunidade.

A tal “peste” nunca é chamada de AIDS, mas, convenhamos, o filme nem tenta esconder. No começo, você até pensa: “Será que é metáfora?”. Mas quando começam a aparecer sarcomas, a metáfora pega sua bolsa e vai embora. Como ninguém sabe o que está acontecendo — afinal, estamos no meio do deserto, nos anos 80, sem Google, sem SUS e com muita ignorância — surgem boatos de que a doença passa pelo olhar.

Céspedes usa essa confusão para nos colocar na pele de Lidia, que acredita no mito até perceber que a vida é mais complicada do que um boato homofóbico. A jornada dela é dolorosa, bonita e cheia de nuances.

Apesar do tema pesado, o filme tem momentos de pura alegria queer. Tem concurso de drag improvisado, tem mergulho em lagoa, tem a família inteira dando um baile em um grupo de mineiros aposentados que invadem a casa achando que vão botar ordem — e saem vendados, humilhados e provavelmente repensando a masculinidade.

As atuações são um espetáculo à parte. Catalán e Dinamarca entregam personagens que vivem entre a tragédia e a festa, entre o medo e o brilho. É aquele equilíbrio perfeito entre “vou morrer amanhã” e “mas hoje eu vou dublar Gloria Gaynor”.

Claro, o filme apresenta alguns problemas comuns a longas-metragens de estreia: a narrativa dá umas voltas no meio, como quem tenta achar o banheiro no escuro. Mas Céspedes recupera o ritmo no final e entrega algo sensível, ousado e cheio de personalidade.

No fim, “O Olhar Misterioso do Flamingo” é um filme que olha para sua comunidade com carinho, firmeza e zero paciência para preconceito. Ele te faz sentir o mesmo amor que Lidia sente por sua família — um amor que resiste ao deserto, à doença, à violência e, principalmente, à ignorância.

É cinema queer com alma, coragem e um toque de deboche. Exatamente como Lemebel gostaria.

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