
No início dos anos 2000, o estúdio brasileiro Vídeo Brinquedo começou uma coleção de curtas animados de baixo orçamento que representavam algumas das fábulas clássicas presentes no imaginário popular. Essa iniciativa teve muita importância na época como material complementar para educação de crianças em todo o país. Afinal, uma fábula é uma narrativa curta que, ao final, transmite uma lição moral, ou seja, um ensinamento sobre algum valor humano essencial para se viver bem em sociedade. Uma das obras realizadas foi ‘’A Cigarra e a Formiga’’ (2005). Lembro-me até hoje de, quando menino, ter assistido esse desenho com minha família pela primeira vez. A narrativa e animação simples foram o suficiente para prender a minha atenção e, no final, me permitiu debater sobre os ensinamentos da obra. É por isso que fábulas se tornaram clássicos: resistem ao tempo, tratam de coisas universais humanas, que geram identificação e têm uma importância imensa para educação e formação dos jovens.
Dito isso, a fábula a ‘’A Cigarra e a Formiga’’ tem origem na Grécia Antiga, atribuída ao poeta Esopo. Essa história moral foi transmitida oralmente por anos e só teve uma versão oficial escrita por volta de 1668, pelo poeta francês Jean de La Fontaine, que transformou a simples narrativa em um texto extremamente popular. E, em 2023, em pleno século XXI, ela continua sendo contada às novas gerações, desta vez com o filme: ‘’O Grilo e A Formiga’’ (Cvrčak i mravica), de 2023.
Esse longa-metragem tem uma grande importância para a história do cinema de animação mundial, afinal é a primeira animação de longa duração em 3D da Croácia. E o resultado? Bom, na sua estreia o filme animado alcançou um dos maiores índices de público dos últimos 15 anos do seu país.
A história segue a vida de Antoinette (ou Juliette, na dublagem brasileira), que é uma formiga e de Ket (ou Léo), um grilo. Por serem de espécies diferentes, levam estilos de vida completamente distintos. Enquanto as formigas são trabalhadoras e construtoras, que prezam por casas resistentes a qualquer estação do ano, seguem uma alta disciplina de horários e regras, apreciando o silêncio; os grilos, por sua vez, valorizam a diversão, a música, o barulho e levam uma vida mais ‘’nômade’’, vivendo em espaços abertos e sem proteção contra o inverno.
Antoinette conhece Ket e, apesar das suas diferenças, formam uma amizade e um romance que enfrenta a resistência de suas respectivas comunidades, construindo um arco meio shakespeariano, com um romance proibido de Romeu e Julieta. Com Ket, Antoinette conhece a importância da arte, entende que fazer shows também é um trabalho e aprende a aproveitar o presente. E com Antoinette, Ket aprende sobre a importância do trabalho em equipe e da responsabilidade. Tudo isso com uma história leve, divertida, engraçada e que reforça os valores da empatia, amizade e equilíbrio entre trabalho e diversão.
Em termos narrativos, o roteiro de Luka Rukavina, que também assina a direção, e de Rona Zulj é simples e segue milimetricamente as 12 etapas do modelo de Christopher Vogler da Jornada do Herói, fazendo da história previsível, mesmo nos pontos que se propunha a surpreender. O longa ainda conta com músicas pops de Coco Mosquito e Vjeran Salamon, que contribuem para a narrativa, evolução dos personagens e ainda geram momentos divertidos para o público.
No aspecto visual, o filme pode causar um leve estranhamento para os olhos muito acostumados com as animações ocidentais, como as da Disney. No entanto, o visual estilizado, com um leve estilo retrô e uma textura rica nos cenários, faz com que seu visual seja um ponto positivo e atraente para crianças e adultos.
Em resumo, o filme pode não ser super inovador nos termos narrativos, mas essa releitura moderna de uma fábula clássica tem imenso potencial para animar e entreter toda a família.













