O Estrangeiro, 2025 (por Peter P. Douglas)

O Estrangeiro (L’étranger, 2025), longa-metragem francês de drama, distribuído pela California Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 16 de abril de 2026, com classificação indicativa 16 anos e 123 minutos de duração.

Tradutores vivem há décadas num MMA linguístico tentando decidir se “L’Étranger” (1942), escrito por Albert Camus, deveria ser traduzido como “The Outsider” (algo mais próximo de um indíviduo que não pertence a nenhum grupo) ou “The Stranger” (forasteiro). O primeiro passa melhor a vibe de “sou emocionalmente inacessível e gosto disso”. O segundo é um falso cognato que enganou meio mundo, mas acabou ficando — talvez porque ninguém quis brigar com as editoras, ou porque, em 1979, Robert Smith do “The Cure” já tinha feito “Killing an Arab” e aí ficou feio mudar.

De qualquer forma, o título permaneceu firme e forte, inclusive na adaptação irlandesa de François Ozon, que é tão bonita que dá vontade de enquadrar, e tão psicológica que dá vontade de deitar no divã depois.

E olha, talvez tenha sido uma boa escolha. Ozon, que muda de estilo mais rápido que Meursault muda de expressão (ou seja, quase nunca), dá um jeitinho de destacar as nuances coloniais da história. O filme já começa com um cinejornal francês vendendo Argel como se fosse um pacote turístico. Quando Meursault (Benjamin Voisin), o anti-herói da literatura, leva Marie (Rebecca Marder) ao cinema para ver uma comédia com Fernandel, uma placa no saguão avisa: “nativos não são permitidos”. E quando Meursault mata um árabe, ele descobre que, para as autoridades, isso é praticamente uma infração de trânsito. Agora não chorar no funeral da mãe, isso sim é gravíssimo.

O assassinato, tanto no livro quanto no filme, é o momento em que tudo desanda. E, curiosamente, Ozon transforma essa desgraça existencial em algo quase desejável. A fotografia em preto e branco de Manuel Dacosse é tão linda que até o sol parece ter contratado um iluminador profissional. A praia vira um cartão-postal. A trilha de Fatima Al Qadiri mistura orquestra com influências árabes e quase convence o espectador a esquecer que está vendo um homem caminhando rumo à própria ruína filosófica.

Dá até para argumentar que o filme é bonito demais para uma história sobre angústia existencial e aceitação da aniquilação. Mas Ozon parece fazer isso de propósito: ele vende o glamour, mas deixa o horror universal ali, escondido, pronto para pular como um gato existencialista. Afinal, estamos falando de uma trama que envolve morte da mãe, cachorro apanhando e um assassinato final — não exatamente material para um musical da Broadway.

A segunda metade do filme é mais densa e mergulha nas questões que deixavam os intelectuais franceses dos anos 1950 acordados à noite, provavelmente fumando três maços de cigarro enquanto discutiam o absurdo da existência. Ainda assim, o filme continua interessante e trata o texto de Camus com respeito digno de professor de filosofia em semana de prova.

No geral, a adaptação de Ozon mostra direitinho como a empatia mal calibrada pode transformar o público em cúmplice involuntário: de repente estamos sentindo pena de um homem que matou alguém sem motivo convincente, enquanto as vítimas ficam ali, invisíveis, como se fossem figurantes dispensáveis da história. É o tipo de situação que faz você pensar duas vezes antes de dizer “eu entendo o lado dele”.

E sim, o mencionado single de 1979 aparece nos créditos finais. Porque, claro, nada mais apropriado do que encerrar uma adaptação de Camus com uma música que já causou polêmica suficiente para virar parte da mitologia pop.

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