O Drama (por Peter P. Douglas)

O Drama (The Drama, 2026), longa-metragem estadunidense de comédia dramática, distribuído pela Diamond Films, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 09 de abril de 2026, com classificação indicativa 16 anos e 103 minutos de duração.

O quanto do seu passado você deve revelar ao seu noivo perfeito antes do casamento? Pergunta simples, resposta complicada. Em geral, assuntos delicados deveriam ser evitados, mas sempre existe aquela pessoa otimista que acha que “não deve ser nada demais” e resolve abrir o coração. E é aí que a vida dá risada. Essa é a base do filme conceitual de Kristoffer Borgli.

Charlie (Robert Pattinson), um historiador de arte britânico com cara de quem esquece onde deixou o próprio celular, conhece Emma (Zendaya) em um café. Ele tenta puxar conversa, mas Emma, surda de um ouvido e ouvindo música no outro, simplesmente não percebe. Charlie interpreta isso como rejeição, mas logo tudo se resolve e nasce um romance digno de discurso de casamento. Até aí, tudo muito fofo — mas Borgli já planta um clima estranho, com closes desconfortáveis e trilha sonora que parece saída de um pesadelo minimalista.

Quando o casamento se aproxima, Charlie e Emma vão jantar com o casal de amigos Rachel (Alana Haim) e Mike (Mamoudou Athie). Eis que alguém tem a brilhante ideia de jogar “qual foi a pior coisa que você já fez?”. Porque nada une casais como traumas revelados entre taças de vinho.

Emma então conta que, aos 14 anos, planejou algo brutal, mas não conseguiu concluir. E que sua surdez parcial não veio de uma infecção, mas de consequências desse plano. Borgli inventa uma explicação tão horrível que você quase admira a criatividade. Emma espera que todos ignorem a revelação e sigam em frente, mas o grupo fica paralisado. Charlie percebe que o relacionamento deles está começando a rachar.

A partir daí, “O Drama|” vira uma mistura de sátira e suspense, sem nunca deixar claro se você deveria rir, ficar tenso ou ligar para um terapeuta. A graça — ou desgraça — está justamente nessa ambiguidade. O segredo de Emma é apresentado como algo absurdo, macabro e quase cômico, dependendo de quanto você acredita na “recuperação completa” dela.

Charlie começa a se perguntar se a tendência violenta de Emma pode voltar. E o filme levanta uma questão desconfortável: quantas pessoas por aí são “quase-assassinas” que simplesmente desistiram no meio do caminho e seguiram a vida como se nada tivesse acontecido?

O filme tropeça um pouco ao lidar com as consequências do não-crime — o que Emma fez depois, como agiu, como ninguém percebeu nada. E o final dá a sensação de que Borgli perdeu um pouco da coragem que teve no início.

Ainda assim, “O Drama” exibe um estilo afiado, malicioso e deliciosamente de mau gosto. É uma provocação bem articulada, um colapso psicológico embalado com mais esperteza do que muitos filmes que tentam ser sérios demais. E, no mínimo, entrega exatamente o que o título promete: drama.

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