
O Diabo de Cada Dia (The Devil All The Time, 2020), com classificação indicativa 18 anos e 138 minutos de duração, apresenta uma sucessão de histórias que se cruzam, no período pós Segunda Guerra Mundial, pelo Sul dos Estados Unidos, em um cenário rural marcado por perdas, crenças distorcidas e violência cotidiana.
O filme dirigido por Antonio Campos adapta o romance escrito por Donald Ray Pollock. A obra se desenrola como uma crônica de eventos interligados, focando em Arvin Russell (Tom Holland), que serve como eixo moral, embora torturado, da história.
A principal característica do longa é sua estrutura episódica, que constrói várias subtramas em torno do núcleo central de Arvin. O elenco, repleto de rostos conhecidos (Robert Pattinson, Riley Keough, Haley Bennett, Sebastian Stan), cumpre o papel de dar corpo a essas figuras moralmente falhas.
A direção faz um uso particular da voz “over”, que descreve e conecta os eventos, servindo como um guia que orienta o espectador através das décadas e das reviravoltas do destino. Essa narração, em vez de apenas complementar, assume um papel quase literário, ditando o ritmo e o humor do filme. Essa escolha dá ao filme um tom de conto passado de geração em geração, como se alguém estivesse relembrando fatos que marcaram uma comunidade.
A trama gira em torno da família Russell, especialmente Arvin. Desde pequeno, ele presencia situações que o colocam diante de escolhas difíceis. O pai, Willard (Bill Skarsgård), retorna da guerra com marcas que afetam toda a família. A fé, usada como escudo ou arma, aparece em diferentes formas: no fanatismo do pastor Preston, na devoção cega de Willard, e na busca de Arvin por algum tipo de justiça.
Outros personagens orbitam essa espiral de desgraças: um casal que mata viajantes, um xerife corrupto, uma jovem que tenta encontrar algum sentido em meio ao caos. Cada um deles parece carregar uma parte do que se entende por maldade, sem que isso seja tratado como algo sobrenatural. O filme não recorre a entidades ou forças externas. Tudo está ali, entre pessoas comuns, em cidades pequenas, em atos que se repetem.
A trilha sonora, com músicas das décadas de 50 e 60, reforça o tempo em que tudo se passa. Os diálogos são carregados de sotaques e expressões locais, o que ajuda a situar os personagens em seus contextos. O ritmo é lento, com cenas que se estendem e exigem atenção. Algumas histórias demoram a se conectar.
O filme não oferece conforto. Ele segue até o fim com a mesma dureza com que começa. Cada personagem parece destinado a enfrentar algo que não escolheu, e o desfecho não traz alívio. É um retrato de um lugar onde a esperança é rara e o mal se disfarça de fé, autoridade ou amor.















