O Beijo da Mulher Aranha, 2025 (por Peter P. Douglas)

O Beijo da Mulher Aranha (Kiss Of The Spider Woman, 2025), longa-metragem estadunidense de drama e musical estadunidense, distribuído pela Paris Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 15 de janeiro de 2026, com classificação indicativa 14 anos e 128 minutos de duração.

Em uma das várias pesquisas que fiz, li em algum lugar que, D.A. Miller analisou, em “Place for Us: Essay on the American Musical (1998)”, que homens gays se identificam com musicais da Broadway, descrevendo a chamada “show tune” como uma forma de mascarar o caos interno, pois cantar algo animado enquanto tudo desmorona seria uma maneira de afastar a dor por meio de um otimismo performado. John Kander e Fred Ebb exploraram esse contraste, em filmes anteriores. Em “Cabaret”, Sally Bowles canta como se nada estivesse acontecendo enquanto o nazismo avança; em “Chicago”, crimes passionais viram números de vaudeville embalados por jazz.

“O Beijo da Mulher-Aranha”, inspirado no romance de Manuel Puig, leva essa lógica ao extremo. Assim como no livro, um homem gay preso durante a ditadura argentina tenta suportar a realidade narrando filmes românticos para seu companheiro de cela, um militante político. A versão musical intensifica esse mecanismo de fuga, especialmente quando a diva imaginada pelo protagonista surge em um número que celebra a dissociação como forma de sobrevivência: “Você precisa aprender a não estar onde está…”.

Bill Condon — roteirista da adaptação de “Chicago” e diretor de “Dreamgirls – Em Busca de Um Sonho” — leva ao cinema o último capítulo dessa trilogia informal de Kander e Ebb. Ele enfatiza com mais clareza do que o filme de 1985, de Héctor Babenco, os contrastes centrais da obra de Puig: o embate entre engajamento e escapismo, masculinidade e feminilidade, repressão e desejo. Embora o orçamento limitado às vezes fique evidente e a mistura entre drama prisional e fantasia hollywoodiana nem sempre seja fluida, Condon alcança grande parte do que se propõe. A direção trata com cuidado as camadas políticas e psicológicas da história, e os números musicais ampliam o impacto emocional e dramático do enredo.

No roteiro, que combina o romance de Puig com o libreto de Terrence McNally, Molina (Tonatiuh) cumpre pena por atentado ao pudor — uma versão suavizada de acusações anteriores — e passa a dividir a cela com Valentin (Diego Luna), um ativista. A convivência entre os dois é marcada por contrastes: Molina é expansivo, delicado e desinteressado em política; Valentin é rígido, reservado e militante. A aproximação acontece por meio das histórias que Molina conta sobre seu filme favorito, uma produção fictícia dos anos 1940 chamada O Beijo da Mulher-Aranha, estrelada por Ingrid Luna (Jennifer Lopez) em dois papéis: Aurora, uma editora de moda que reencontra o amor, e a criatura mítica que exige seu sacrifício.

Essa fantasia funciona como contraponto à brutalidade da prisão. Molina sofre assédio dos guardas; Valentin é ameaçado com tortura; ambos lidam com condições degradantes. O diretor da penitenciária tenta manipular Molina oferecendo liberdade condicional em troca de informações sobre Valentin. Nesse processo, Molina se apaixona pelo companheiro de cela, e Valentin, aos poucos, também se abre afetivamente. Molina tenta então conquistar sua liberdade sem trair o homem por quem se apaixonou.

Condon e o elenco tratam esse material denso com cuidado. A versão de Molina apresentada aqui é mais complexa do que a do filme de 1985: ele é sensível, mas também firme, dividido entre a fantasia cinematográfica e a dureza da vida real, encontrando força justamente naquilo que o torna diferente. Valentin, inicialmente fechado, se transforma ao longo da relação, revelando delicadeza e empatia. Tonatiuh e Luna dão vida a essa dupla com interpretações que ressaltam um dos temas centrais de Puig: a possibilidade de libertação ao reconhecer, dentro de si, aspectos tradicionalmente associados ao outro gênero. A canção final ironiza a ideia de “final feliz”, mas Condon ainda encontra pequenos lampejos de esperança na coragem dos dois.

A maior parte dos números musicais acontece dentro da fantasia criada por Molina. Lopez brilha com um glamour que remete aos grandes nomes da Hollywood clássica, enquanto Tonatiuh e Luna aparecem em papéis que reforçam a lógica interna desse mundo imaginado. O diretor de fotografia Tobias Schliessler tenta recriar o estilo dos musicais da MGM, filmando as coreografias em planos amplos e contínuos, o que permite apreciar o trabalho de Sergio Trujillo sem cortes excessivos. O uso de cores fortes e contrastes funciona bem, embora a nitidez da captação digital às vezes prejudique a sensação de fantasia que o filme busca.

O número mais impactante, porém, acontece fora da fantasia hollywoodiana: “Where You Are”, inteiramente situado na mente de Molina, filmado em um estúdio vazio. O resultado é intenso, sedutor e doloroso, unindo o brilho do musical a uma crítica política contundente.

Apesar de não ter nomes tão impactantes quanto a versão de 1985, onde tinhamos Hector Babenco na direção, e Sônia Braga, William Hurt e Raul Julia em cena, vale a pena dar uma chance para essa nova “visão”, pois a mesma também possui suas qualidades.

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