O Agente Secreto (por Casal Doug Kelly)

O Agente Secreto (2024), longa-metragem nacional dramático, distribuído pela Vitrine Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 06 de novembro de 2025, com classificação indicativa 16 anos e 160 minutos de duração.

Dirigido por Kleber Mendonça Filho, o filme conversa com um público muito específico, e isso limita seu alcance para além de nichos já familiarizados com o tipo de cinema que o diretor costuma fazer.

A história se passa no Recife de 1977 e gira em torno de Marcelo/Armando, um ex-professor que adota uma nova identidade para fugir de perseguições políticas. A trama se desenvolve de forma fragmentada, com passagens que não seguem uma linha clara de causa e consequência. Isso exige do público um grau de atenção e paciência que nem todos estão dispostos a oferecer. O filme não entrega um enredo com começo, meio e fim bem definidos, o que pode afastar quem busca uma experiência mais direta.

Boa parte da força do filme está em referências culturais e históricas muito específicas do Brasil, especialmente do Nordeste (como a lenda da “Perna Cabeluda”). Há menções a músicas, figuras públicas e eventos que não são amplamente conhecidos fora do país — ou mesmo fora de certos círculos. Isso dificulta a conexão com um público internacional ou com quem não compartilha esse repertório. A trilha sonora, por exemplo, inclui faixas como “Culto à Terra”, do disco “Paêbirú”, que tem um peso simbólico forte para quem conhece, mas passa despercebido para quem não tem esse contexto.

Outro ponto é o ritmo. O filme se desenvolve com longas sequências de espera, diálogos espaçados e cenas que parecem mais interessadas em criar atmosfera do que em avançar a história. Isso pode funcionar para quem já aprecia esse tipo de construção, mas tende a cansar quem espera um desenvolvimento mais direto. A ausência de um clímax claro ou de uma resolução mais fechada também contribui para essa sensação de distanciamento.

A atuação de Wagner Moura é consistente, mas o personagem que interpreta não passa por grandes transformações. Ele permanece em estado de alerta e fuga durante quase todo o filme, o que limita a variação dramática. Isso pode ser lido como coerente com a proposta, mas também pode ser visto como repetitivo por quem espera mais movimento interno no protagonista.

O próprio título do filme pode gerar uma expectativa que não se confirma. “O Agente Secreto” sugere espionagem, ação ou suspense mais tradicional, mas o que se encontra é um retrato mais introspectivo de um homem tentando sobreviver em meio a um sistema opressor. Essa diferença entre expectativa e entrega certamente frustra parte do público.

O longa tem qualidades que agradam quem já acompanha o trabalho do diretor ou se interessa por cinema político e autoral. Mas essas mesmas escolhas tornam difícil que ele atinja um público mais amplo, que costuma buscar histórias mais acessíveis, com ritmo mais direto e menos dependência de referências locais.

No mais, embora o filme tenha sido premiado em Cannes, o Oscar segue critérios diferentes. A Academia costuma valorizar obras com apelo emocional mais direto, estrutura mais clara e personagens com trajetórias bem delineadas. “O Agente Secreto” opta por caminhos mais difusos, o que pode ser admirado em festivais, mas não garante força suficiente para competir com produções que equilibram forma e impacto de maneira mais acessível.

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