
Nuremberg (2025), longa-metragem de drama histórico, coprodução Estados Unidos e Hungria, distribuído pela Diamond Films, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 26 de março de 2026, com classificação indicativa 16 anos e 148 minutos de duração.
“Nuremberg”, roteirizado e dirigido por James Vanderbilt, chega como mais uma prova de que Hollywood nunca perde a chance de revisitar a Segunda Guerra — mas, desta vez, com um toque especial: transformar um dos julgamentos mais importantes da história em um duelo psicológico digno de “O Silêncio dos Inocentes”, só que com menos canibalismo e mais uniformes nazistas.
Baseado no livro “O Nazista e o Psiquiatra”, escrito por Jack El-Hai, o filme acompanha Douglas Kelley (Rami Malek), o psiquiatra do exército que teve a ingrata missão de analisar Hermann Göring (Russell Crowe), o ex-número dois de Hitler e o nazista mais bem preservado ainda disponível para estudo.
E aqui está o charme perverso do filme: ele não tenta abarcar o julgamento inteiro, nem recontar tudo com personagens fictícios. Não. Vanderbilt decide focar no que realmente importa — dois homens trancados numa sala, tentando manipular um ao outro como se estivessem disputando o campeonato mundial de gaslighting. É quase romântico, se você ignorar o genocídio.
A dinâmica entre Crowe e Malek é o coração (ligeiramente necrosado) da obra. Crowe entrega um Göring tão carismático, tão simpático, tão “vovô nazista que faz piadas no almoço”, que você quase esquece que ele era responsável por crimes indescritíveis. É exatamente esse desconforto que torna o filme tão fascinante: você se pega rindo, depois se pega se odiando por ter rido, e depois percebe que era exatamente isso que o diretor queria.
Claro, ao focar tanto nessa dupla, o filme trata o resto dos réus como figurantes de luxo. Julius Streicher, Rudolf Hess, Speer… todos aparecem como se tivessem sido convidados para uma festa, mas só pudessem ficar na cozinha. Mas tudo bem — “Nuremberg” não quer ser um documentário completo, quer ser um thriller psicológico com nazistas de estimação. E, nesse quesito, ele entrega.
O julgamento em si é condensado em poucas cenas, como se fosse um episódio de tribunal em fast-forward. A acusação parece perder, depois ganhar, depois perder de novo, tudo em questão de minutos — mas quem está reclamando? Vanderbilt sabe que o público veio para ver Crowe e Malek trocando farpas, não para assistir horas de depoimentos sobre logística de guerra.
Malek, por sua vez, interpreta Kelley como um homem que começa arrogante, passa por uma crise existencial, tem epifanias dramáticas e termina com aquele olhar de “aprendi uma lição importante sobre a humanidade”. É hollywoodiano? É. É exagerado? Muito. Funciona? Estranhamente, sim — porque o filme abraça o melodrama com a confiança de quem sabe que está lidando com material histórico pesado e precisa de um pouco de tempero para descer.
Há momentos clichês? Claro. O soldado judeu que só fuma quando a guerra acaba, o juiz que leva Kelley para passear no cenário de comícios nazistas às três da manhã como se fosse um tour turístico macabro… tudo isso tem cara de “roteirista empolgado digitando com força”. Mas, honestamente, esses momentos dão ao filme aquele charme involuntário de drama histórico que sabe que está sendo drama histórico.
O elenco de apoio é excelente, com Michael Shannon e Richard E. Grant entregando atuações tão intensas que você quase sente cheiro de tribunal. E, como manda a tradição, o filme inclui imagens reais dos campos de concentração — chocantes, devastadoras e necessárias. Elas funcionam como lembrete de que, por trás de toda a teatralidade, havia um horror real que nenhuma dramatização consegue igualar.
Sim, o filme explica demais. Sim, às vezes parece que está falando com um público que faltou às aulas de história. Mas isso faz parte do pacote: “Nuremberg” quer ser acessível, quer ser didático, quer garantir que ninguém saia da sala sem entender que nazistas são ruins — caso alguém ainda tivesse dúvidas.
A mensagem final, de que atrocidades podem acontecer de novo e talvez nem percebamos porque os vilões não estarão usando “uniformes assustadores”, é entregue com a sutileza de um piano caindo do quinto andar. Mas é atual, é relevante e, no contexto do filme, funciona como aquele tapa na cara que você já sabia que viria.
No fim, “Nuremberg” é uma releitura ousada, teatral e deliciosamente tensa dos julgamentos. Crowe brilha, Malek acompanha, e Vanderbilt entrega um filme que mistura história, psicologia e drama com a elegância de quem sabe que está mexendo com material inflamável — e decide acender um fósforo mesmo assim.
É sério, é sombrio, é provocativo… e, de um jeito torto, é irresistivelmente divertido.
















