Narciso (por Peter P. Douglas)

Narciso (2024), longa-metragem nacional de drama, distribuído pela Elo Studios, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 19 de março de 2026, com classificação indicativa 10 anos e 90 minutos de duração.

O mito grego de Narciso atravessou milênios, inspirou poetas, filósofos, artistas e, claro, agora inspira também um filme brasileiro que tenta atualizar a história… mas acaba tropeçando no próprio reflexo. Jeferson De, que já havia flertado com o tema lá atrás no curta-metragem “Narciso Rap” (2004), decide revisitar a ideia com mais ambição, mais fantasia, mais crítica social — e, infelizmente, menos foco. O resultado é um longa que tem coração, tem intenção, tem elenco forte… mas parece tão encantado com suas próprias metáforas que esquece de contar a história com clareza.

A trama segue Narciso, interpretado – muito bem – por Arthur Ferreira, um menino preto e órfão que vive numa casa de passagem administrada pelos irmãos Carmem (Ju Colombo) e Joaquim (Bukassa Kabengele). Às vésperas de seu aniversário, enfrenta o tipo de trauma que nem terapia com chocolate resolve: foi devolvido por uma família branca que desistiu de adotá-lo. Sim, devolvido. Como se fosse um item comprado errado no e-commerce. A cena é curta, direta e devastadora — e, ironicamente, uma das poucas partes do filme que não ficam em cima do muro.

Para animá-lo, Alexandre (Faiska Alves), outra criança do lar, dá a Narciso uma bola mágica: se ele acertar três cestas, um gênio aparece para realizar seu maior desejo. E o pedido do garoto é simples e doloroso: ele quer uma família. O gênio — vivido por Seu Jorge com aquele charme de quem já viu de tudo — aceita, mas impõe a famosa maldição: Narciso jamais poderá ver sua própria imagem refletida. A partir daí, o filme mergulha na fantasia, mas com os dois pés presos na realidade social brasileira, o que poderia ser ótimo… se o roteiro não ficasse tão indeciso sobre o que quer dizer.

Narciso é levado para uma família branca, perfeita, organizada, quase saída de catálogo de loja de móveis. Mas, claro, a saudade dos amigos e da casa de Carmem começa a corroer o encanto. O conflito é interessante: pertencimento, identidade, negritude, adoção, racismo. Tudo está ali, piscando para o espectador como se dissesse “olha que tema importante”. O problema é que o filme parece tão preocupado em ser simbólico, poético e metafórico que acaba deixando a mensagem principal perdida no meio do caminho. É como se o roteiro tivesse medo de ser direto, preferindo sugerir tudo e afirmar nada.

A estrutura do longa denuncia sua origem, dando para sentir o elástico puxando e uma sensação constante de que falta algo. O filme quer discutir muita coisa, mas não se compromete totalmente com nenhuma. É como se “Narciso” estivesse olhando para vários espelhos ao mesmo tempo e não conseguisse escolher qual refletir.

O problema é que, apesar das boas atuações, o filme parece indeciso sobre o que quer ser. Fantasia? Drama social? Fábula moral? Crítica racial? Tudo isso junto? O resultado é uma obra que tem momentos fortes, mas carece de direção narrativa. A metáfora do reflexo, da identidade e da negritude é poderosa, mas o filme a trata com tanta delicadeza que, às vezes, parece que está com medo de quebrar o espelho. E, no fim, quem fica quebrado é o entendimento do público.

“Narciso” tem intenção, tem beleza, tem elenco, tem temas expressivos — mas falta firmeza. Falta dizer claramente o que quer dizer. Falta parar de se admirar e começar a se explicar. É um filme que olha para si mesmo com profundidade, mas não percebe que o espectador está ali do outro lado, tentando entender o que, afinal, ele quer refletir.

Ainda assim, é uma obra curiosa, sensível e cheia de potencial. Só precisava de um roteiro menos tímido e mais direto — porque, às vezes, a metáfora não precisa de poesia. Precisa apenas de um espelho limpo.

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