
Monsieur Aznavour (2024), longa-metragem francês biográfico, distribuído pela Imovision, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 24 de julho de 2025, com classificação indicativa 14 anos e 134 minutos de duração.
Tornar-se artista, viver da própria arte e, melhor ainda, alcançar um imenso sucesso, nunca é tarefa fácil. Em retrospecto, a ascensão à fama parece depender de um raro alinhamento entre talento, trabalho e sorte.
As trajetórias das grandes estrelas são tão únicas quanto imprevisíveis, frequentemente forjadas no contraste entre luz e sombra, moldadas por personalidades complexas. Assim foi Charles Aznavour (1924-2018), o homem, filho de refugiados, que com 180 milhões de álbuns vendidos, ultrapassou fronteiras e se tornou um ícone da cultura francesa no mundo inteiro.
Sua trajetória excepcional marcada por sonhos de infância, ambições ferozes e encontros memoráveis com colegas criativos, é o cerne do terceiro longa-metragem de Mehdi Idir e Grand Corps Malade, “Monsier Aznavour”.
O filme constrói um retrato romântico, a longo prazo, inserido no mesmo estilo de cinebiografias como “Johnny & June” (2005), “Bohemian Rhapsody” (2018) e Ray (2004), e depende, como eles, em grande parte das elipses temporais e da força de seu protagonista, neste caso a de Tahar Rahim.
Dividido em cinco partes (Les Deux Guitares, Sa jeunesse, La Bohème, J’me voyais déjà e Emmenez-moi), o filme traça, de maneira ágil, a infância humilde de Charles Aznavour na Paris dos anos de 1930, em meio a uma família feliz de armênios apátridas. Em seguida, aprofunda-se no período crucial de sua inserção no cenário da canção francesa, passando por momentos marcantes como sua parceria musical com Pierre Roche (interpretado por Bastien Bouillon) durante a ocupação alemã, o amparo quase paternal de Édith Piaf (“és como eu, és das ruas”), vivida por Marie-Julie Baup, além de suas incursões em Nova York sem visto e sua estadia de dois anos em Montreal.
O filme também explora suas dificuldades amorosas e profissionais, assim como o dilema entre ser compositor e cantor, agravado por obstáculos aparentemente intransponíveis — Charles era considerado pouco atraente, sua voz vista como excessivamente velada, e os críticos não poupavam comentários marcados por xenofobia.
Entre riscos e incertezas, ele finalmente conquista seu aguardado triunfo em 2 de dezembro de 1960, no palco do Alhambra. Daí em diante, uma década de sucessos se desenrola, impulsionada por sua ambição insaciável, consolidando seu status lendário. No entanto, por trás do artista celebrado, há um homem que enfrenta suas próprias dores e dilemas internos.
Movido por uma inegável integridade, o longa não perde seu encanto, apresentando cenas visualmente belíssimas e intensas, especialmente as sequências de concertos. No entanto, essas belas passagens alternam com momentos que carecem de maior impacto emocional, focando mais na progressão narrativa, que, apesar da excelente montagem, é comprometida pela extensa duração da história.
O maior mérito do filme — e, paradoxalmente, sua fragilidade — reside na complexa personalidade de Aznavour. Seu lado mais sombrio, marcado por uma obsessão em alcançar o topo a qualquer custo, dificulta a conexão emocional do espectador, especialmente nos momentos finais da trama. Além disso, a interpretação de Tahar Rahim, embora excepcional, oscila entre brilhante e desproporcional, refletindo a própria intensidade de seu modelo real.














