Mirrors N° 3 (por Peter P. Douglas)

Mirrors N° 3 (Miroirs No. 3, 2025), longa-metragem dramático alemão, exibido durante a 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (2025), com classificação indicativa 14 anos e 86 minutos de duração.

Filme que se desenha aos poucos, como uma melodia repetida com variações quase imperceptíveis. Christian Petzold parte de uma situação que parece trivial: uma jovem sobrevive a um acidente de carro e é acolhida por uma mulher desconhecida. A partir daí, o que se vê é menos uma história e mais uma sequência de aproximações, hesitações e trocas silenciosas.

Laura, interpretada por Paula Beer, entra na casa de Betty e passa a ocupar um espaço que não era seu. Aos poucos, ela se torna parte da rotina, sem que ninguém diga exatamente por quê.

A música de Ravel, que dá nome ao filme, aparece como uma espécie de guia. A repetição dos acordes, a variação entre os movimentos, tudo isso se reflete na forma como Petzold constrói as cenas. Há uma sensação de que tudo já aconteceu antes, mas de um jeito diferente.

A casa, os objetos, os diálogos — tudo parece familiar, mas fora de lugar. A relação entre Laura e Betty se desenvolve sem grandes gestos, mas com uma tensão que cresce a cada troca de roupa, a cada olhar que dura um pouco mais.

O filme evita explicações. O acidente que abre a história é mostrado em fragmentos, e o que levou Laura até ali nunca é dito com clareza. Isso não parece ser um erro, mas uma escolha. Petzold prefere deixar que o tempo faça seu trabalho, que os personagens revelem o que podem, quando quiserem. Há momentos em que tudo parece parado, mas há algo se transformando — mesmo que ninguém saiba exatamente o quê.

Paula Beer entrega uma atuação que se sustenta no mistério. Ela parece sempre à margem, mesmo quando está no centro. Barbara Auer, como Betty, constrói uma figura que mistura acolhimento e inquietação, tentando modificar um passado que pode vir a se repetir. Os dois homens da casa, Richard e Max, funcionam como contraponto, mas também como espelho. Há uma troca constante entre os personagens, como se todos estivessem tentando ocupar o lugar de alguém que já partiu.

O filme foi exibido em Cannes e chamou atenção por sua estrutura delicada. A comparação com obras anteriores do diretor é inevitável, mas “Mirrors No. 3” parece querer menos. E talvez por isso acabe dizendo mais.

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