Meu Nome é Maria (por Peter P. Douglas)

            Meu Nome é Maria (Maria, 2024), longa-metragem francês biográfico, distribuído pela Imovision, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 27 de março de 2025, com classificação indicativa 16 anos e 102 minutos de duração.

            Retrato imperfeito, mas intrigante, da vida conturbada da atriz Maria Schneider, vivida de forma envolvente por Anamaria Vartolomei. O filme explora seus anos de rebeldia na adolescência, sua grande ascensão aos 19 anos em “Último Tango em Paris” (1972), de Bernardo Bertolucci, e como o trauma sofrido durante as filmagens, aliado a fama controversa do longa, influenciou tanto sua carreira quanto sua saúde mental nos anos seguintes.

            A diretora Jessica Palud, em colaboração com a co-roteirista Laurette Polmanss, faz uma adaptação livre do livro de memórias escrito pela prima de Maria Schneider, narrando os eventos, a partir, do ponto de vista da atriz.

            Embora o filme carregue um tom um tanto desajeitado de seriedade, com algumas cenas que remetem a novelas e um arco previsível sobre uma celebridade perdendo o controle, ele se destaca por abordar um tema incrivelmente atual. Trata-se de uma narrativa de alerta sobre o abuso sofrido por um jovem talento ingênuo e vulnerável em nome da arte, além de explorar as consequências dolorosas que esses maus-tratos acarretam.

            A trama acompanha momentos decisivos da vida de Maria entre 1967 e 1980. Criada por sua mãe solteira e emocionalmente instável (Marie Gillain), Maria é retratada como alguém em busca de aprovação, amor e aceitação. Aos 15 anos, ela entra em contato com seu pai biológico, o famoso ator francês Daniel Gélin (Yvan Attal). No entanto, sua proximidade com ele e seus amigos, como Alain Delon, levam sua mãe a expulsá-la de casa. Maria encontra apoio em seu tio Michel (Jonathan Couzinie) e, posteriormente, em um agente de Paris (Stanislas Merhar), o que lhe proporciona oportunidades para pequenos papéis no teatro e no cinema.

            Quando o ousado diretor italiano Bernardo Bertolucci (Giuseppe Maggio) é atraído pelo aspecto vulnerável de Maria, ele decide escalá-la para contracenar com o astro americano Marlon Brando (interpretado de forma brilhante por Matt Dillon), fazendo com que ela acredite que está prestes a alcançar seu sonho de sucesso. Bertolucci a percebe como uma tela em branco a ser moldada, e Maggio retrata com precisão o charme sedutor e manipulador do jovem cineasta. Apesar de Maria ler o roteiro e aceitar as cenas de nudez exigidas, Bertolucci encoraja Brando a improvisar, levando a cenas de violência que ultrapassam os limites originalmente acordados para sua personagem.

            Palud, que já foi assistente de Bertolucci e, segundo notas na imprensa, possui o roteiro original de filmagem de “Último Tango em Paris”, dedica cerca de 30 minutos do filme à recriação dos ensaios e das gravações. Enquanto Brando é protegido e tratado com cuidado, Maria, vulnerável e frequentemente despida, enfrenta jornadas exaustivas de 14 horas e trabalho aos finais de semana.

            Em uma cena íntima na banheira, Brando inesperadamente empurra sua cabeça para baixo d’água, gerando surpresa e indignação. Esse momento prenuncia a infame “cena da manteiga”, improvisada, onde o personagem de Brando a humilha.

            Embora o ato sexual não seja real, as lágrimas e a humilhação de Maria são genuínas. Apesar de alguns membros da equipe masculina parecerem sentir sua dor, ninguém a consola. Além disso, nem Brando nem Bertolucci se desculpam por submetê-la a essa experiência difícil e fora do roteiro.

            Após o lançamento do filme, a cena de sexo explícita gera grande polêmica na mídia e no público. Maria, a atriz, se vê no centro de uma tempestade, sem saber como lidar com a situação. Quando ela revela a um jornalista que a cena de sexo anal foi inesperada, seu agente a crítica, dizendo que ela precisa “vender o sonho” para a imprensa e fingir que tudo foi intencional. Até mesmo seu pai minimiza seus sentimentos, dizendo que ela teve sorte de ficar famosa com um único papel.

            Os 45 minutos finais do filme se mostram menos interessantes e mais carregados de melodrama, retratando a vida de Maria em um estado de descontrole. Ela se envolve com diversos amantes, tanto homens quanto mulheres, destacando-se Noor (Celeste Brunnquell) como uma das mais atenciosas.

            Lutando contra o vício em heroína, Maria ganha a reputação de ser difícil nos sets de filmagem. Frequentemente, é oferecida a ela apenas papéis de “gatinhas sexuais” exigindo nudez, o que a leva, em mais de uma ocasião, a abandonar produções. O filme se encerra em 1980.

            Retratar o mundo pelos olhos de Maria, com a predominância de close-ups em seu rosto, contribui para disfarçar uma certa simplicidade no design de produção. Grande parte do orçamento parece ter sido destinada aos figurinos e músicas da época, como “Psycho Killer” do Talking Heads. Já a trilha sonora composta por Benjamin Biolay é utilizada de forma esparsa.

            Curiosamente, o filme se encerra sem mencionar que Maria viveu por mais 31 anos, tendo, inclusive, participado de mais de 30 produções cinematográficas e televisivas antes de falecer em 2011, vítima de câncer de mama. Ainda assim, destaca que, ao contrário de outras estrelas de sua época, ela teve a coragem de denunciar os maus-tratos que sofreu, mesmo sendo ignorada ou, pior, relegada ao ostracismo.

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