Massa Funkeira (por Peter P. Douglas)

Massa Funkeira (2025), longa-metragem documental nacional, exibido durante a 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (2025), com classificação indicativa 16 anos e 90 minutos de duração.

A obra mergulha no funk carioca com disposição para escutar quem vive e transforma essa música em modo de vida. A diretora Ana Rieper constrói o documentário a partir de vozes que raramente ocupam espaço no cinema. MCs, produtores, dançarinos e moradores das favelas do Rio falam sobre o que o funk representa para eles — não como gênero musical, mas como forma de existir. O filme se aproxima dessas pessoas sem filtro, sem moldura. A câmera entra nas casas, nos becos, nos bailes, e deixa que cada um conte sua história.

O foco está no chamado “funk putaria”, que há décadas é alvo de críticas e censura. Rieper não tenta defender ou justificar esse estilo. Ela mostra como ele surgiu, como se espalhou, e como se tornou uma ferramenta para falar de desejo, prazer e liberdade. MC Dandara, por exemplo, conta que abandonou letras românticas porque percebeu que o público queria outra coisa. E foi aí que ela encontrou sua voz.

Há uma mistura de saudosismo e crítica social. O filme revisita os tempos da Furacão 2000, com depoimentos de Tati Quebra Barraco, Valesca Popozuda e Bonde do Tigrão. Eles falam sobre o impacto da fama, sobre o preconceito que enfrentaram, e sobre como o funk abriu caminhos que antes pareciam fechados. Mas também há espaço para refletir sobre o presente: o papel das redes sociais, a sexualização dos corpos negros, a dificuldade de ascensão fora da música.

O documentário alterna entre drama e humor. Em um momento, alguém fala sobre como o funk salvou sua vida. No outro, descreve com ironia suas letras mais explícitas. Essa alternância dá ritmo ao filme, mesmo quando algumas entrevistas se estendem mais do que o necessário. Há trechos em que a energia cai, mas logo é retomada por uma fala inesperada ou uma lembrança que muda o tom.

“Massa Funkeira” não se propõe a ser neutro. Ele toma partido e faz isso sem tentar suavizar o que é dito. E, ao escutar essas vozes, mostra que há muito mais por trás do que se canta nos bailes.

Compartilhe