
Manual Prático da Vingança Lucrativa (How to Make a Killing, 2025), longa-metragem estadunidense de comédia dramática, distribuído pela Diamond Films, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 26 de fevereiro de 2026, com classificação indicativa 14 anos e 105 minutos de duração.
Uma premissa até promissora se desfaz lentamente, em puro delírio, em mais um título na lista de tentativas de transformar Glen Powell em estrela de Hollywood. Depois do desastre crítico e comercial de “O Sobrevivente” (The Running Man, 2025), o ator ainda busca firmar o status de “coadjuvante charmoso que pode virar protagonista”. Infelizmente, este filme não é o trampolim… é mais um degrau escorregadio.
“Manual Prático da Vingança Lucrativa” reúne todos aqueles ingredientes que, na teoria, poderiam transformá-lo em um clássico instantâneo. Tem pedigree literário, atuações sedutoras do trio de protagonistas, e um diretor — John Patton Ford — que já tinha feito bonito na estreia. Ou seja, a receita estava ali. Mas, no fim, o prato chega à mesa meio cru. O problema? O roteiro, que deveria ser afiado como uma navalha e acaba mais para faca de manteiga.
Powell interpreta Becket Redfellow, a ovelha negra de uma família bilionária de Long Island. Sua mãe engravidou na adolescência, foi expulsa de casa e levou o filho para uma vida nada glamourosa no norte de Nova Jersey. Criado para acreditar que tinha “sangue azul”, Becket chega à conclusão mais óbvia possível: se vários parentes morrerem de forma conveniente, ele herda tudo. E se ele puder dar uma ajudinha ao destino — com uma série de assassinatos “perfeitos” — melhor ainda.
Margaret Qualley interpreta Julia, a amiga “rica” da infância e amor perdido, que aqui assume o papel de femme fatale enquanto o figurino faz questão de exibir suas pernas em todas as cenas possíveis (agradecemos!). Becket, por outro lado, vive um romance fofinho com uma fashionista interpretada pela sempre radiante Jessica Henwick.
Eventualmente, Becket é contratado por um de seus tios (Bill Camp) para trabalhar na empresa financeira da família, ganha um apartamento de revista, uma namorada estilosa e parece ter vencido na vida. Mas, como ele explica a um padre — em uma estrutura narrativa que mais atrapalha do que ajuda — os assassinatos precisam continuar.
Os parentes destinados ao abate são retratados como caricaturas ambulantes: Zach Woods como um artista hipster do Brooklyn, Topher Grace como um televangelista picareta… todos prontos para serem riscados da lista. O papel até permite que Powell brinque com diferentes personas, como fez tão bem em “Assassino por Acaso” (Hit Man, 2023).
Powell consegue convencer como um sociopata à la Patrick Bateman, capaz de eliminar a família inteira a pauladas? A resposta é um sonoro “não”, mas ele não é tanto o problema aqui. O problema é que o roteiro precisava ser muito mais incisivo. As risadas são raras, e se a intenção era fazer uma sátira mordaz, o filme não chega nem perto.
E aí está o ponto: a história faz muito mais sentido dentro do sistema de classes britânico, onde nasceu, no romance “Israel Rank (século XIX) e na adaptação “As Oito Vítimas (Kind Hearts and Coronets, 1949). Não é coincidência que as melhores histórias com humor ácido e refinado tenham roteiristas britânicos. John Patton Ford, infelizmente, é um americano da Carolina do Sul.
Outro problema: as falhas do roteiro se acumulam tão rápido que, em meia hora, qualquer pessoa com mais de cinco anos perceberia que Becket é o culpado. Na vida real, ele seria manchete nacional antes do segundo assassinato. E, aparentemente, essa família nunca ouviu falar de advogados de direito sucessório. Há também uma tentativa de justificar uma inconsistência envolvendo fronteiras estaduais que é tão forçada quanto inútil. E o confronto do terceiro ato com o avô (Ed Harris) simplesmente não faz sentido. Quanto mais o filme se arrasta, mais tempo você tem para perceber que nada faz sentido. Um filme mais inteligente teria ritmo para impedir esse tipo de reflexão.
Continuo plenamente convencido de que Glen Powell é um ator que nasceu para ser protagonista. Mas “Manual Prático da Vingança” é, no fim das contas, uma oportunidade perdida — daquelas que você assiste pensando: “tinha tudo para dar certo… e mesmo assim deu errado”.















