Kokuho – O Preço da Perfeição (por Peter P. Douglas)

Kokuho: O Preço da Perfeição (Kokuhô, 2025), longa-metragem japonês de drama, distribuído pela Sato Company, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 05 de março de 2026, com classificação indicativa 14 anos e 174 minutos de duração.

Na arte do kabuki, o oshiroi — aquela camada de pó branco tão sutil quanto uma parede recém‑pintada — é aplicado no rosto do ator até que qualquer traço humano desapareça. A maquiagem funciona como uma nevasca estética: cobre tudo, apaga tudo, reinventa tudo. O rosto vira um terreno neutro onde dramas grandiosos podem acontecer — princesas vingativas, amantes trágicos, essas coisas discretas — enquanto qualquer sinal de individualidade fica convenientemente soterrado.

O filme começa exatamente assim: com alguém sendo apagado para virar outra pessoa. Kikuo Tachibana (Soya Kurokawa), 14 anos, se prepara para uma apresentação de Ano Novo em Nagasaki, 1964. Ele é um onnagata, um ator especializado em papéis femininos desde que, em 1629, alguém decidiu que mulheres no palco eram um problema. Enquanto a neve cai lá fora, Kikuo começa sua carreira de esconder tudo o que realmente é — no palco e fora dele.

O filme adapta o romance homônimo de Shuichi Yoshida com toda a pompa possível: é longo, é bonito, é emocional, é tudo aquilo que um épico quer ser. O título, que remete aos “tesouros nacionais vivos”, já chega prometendo grandeza — e, claro, lembrando que no kabuki ninguém brilha sozinho. A revelação de que sucesso custa caro não é exatamente nova, mas o diretor Sang‑il Lee e a roteirista Satoko Okudera tratam o tema como se fosse uma descoberta revolucionária: cada pessoa que repete um papel conhecido não está apenas imitando, mas tentando sobreviver a ele.

Depois de uma apresentação para uma plateia que inclui Hanjiro Hanai (Ken Watanabe), o onnagata mais famoso de Osaka, a vida de Kikuo vira tragédia instantânea: seu pai yakuza é assassinado, e ele decide que tatuar as costas e buscar vingança é o próximo passo lógico. Quando isso dá errado — porque claro que dá — ele vira aprendiz de Hanai, treinando ao lado do filho do mestre, Shunsuke, enquanto a esposa do instrutor deixa claro que não está nem um pouco interessada em adotar um novo prodígio. Afinal, tradição é tradição, e herdeiro é herdeiro.

O filme avança pelas décadas como quem folheia um álbum de fotos muito caro: anos 70, 80, 90, tudo impecável, tudo muito sério. “Kokuho: O Preço da Perfeição” estabelece rapidamente que sua história é sobre fundações — as que sustentam e as que inevitavelmente racham.

A maquiagem e os figurinos até conseguem esconder o passado yakuza de Kikuo, mas não fazem milagre. Sua devoção ao kabuki é tão intensa que, quando ele está no palco, o resto do mundo desaparece — o que é ótimo para a arte, mas péssimo para a vida pessoal. O conflito entre quem ele é e quem ele precisa fingir ser é o que move a obra, alimentado pela relação de amor‑ódio com Shunsuke. Quando os atores adultos (Ryo Yoshizawa e Ryusei Yokohama) assumem os papéis, o drama cresce, as emoções aumentam e o filme finalmente encontra o peso que estava prometendo desde o início.

“Kokuho: O Preço da Perfeição” trata o kabuki com uma reverência quase religiosa. Cada detalhe — figurino, iluminação, cenário — é exibido como se fosse uma relíquia sagrada. O elenco é impecável, Ken Watanabe está em modo “premiação garantida”, e a equipe técnica parece ter sido escolhida a dedo para impressionar. Nada é sutil, mas tudo é bonito.

No fim, o filme é uma grande celebração da arte, da dor e do espetáculo — tudo cuidadosamente maquiado, polido e iluminado. E, apesar de toda a sutileza que ele tenta vender, sua emoção está escancarada em cada cena, como o oshiroi que promete esconder, mas nunca esconde completamente.

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