Instinto Fatal, 2024 (por Peter P. Douglas)

Instinto Fatal (Compulsion, 2024), longa-metragem estadunidense de suspense erótico, estreia, oficialmente, no streaming Filmelier+, a partir de 26 de fevereiro de 2026, com classificação indicativa 18 anos e 99 minutos de duração.

O filme abre com um plano‑sequência tão longo e tão cheio de firulas que parece que o diretor queria gritar “olha, eu sei usar câmera, tá?”. A gente vê só um par de mãos enluvadas invadindo uma casa chique, escalando muro, entrando por janela — tudo com a sutileza de um ladrão que fez curso de parkour no YouTube. O dono da casa aparece, completamente alheio, começa a tirar a roupa rumo ao banho, e a câmera vai chegando cada vez mais perto até que, pronto, o ataque começa: a figura misteriosa desce a espada nele como se estivesse cortando legumes. Só então vemos a assassina no espelho: uma mulher vestida de couro dos pés à cabeça, máscara completa, vibe “fetiche de catálogo”, observando calmamente a bagunça sangrenta que acabou de causar antes de ir embora como quem esqueceu o forno ligado.

Neil Marshall, o diretor, claramente acordou um dia e pensou: “vou fazer um giallo retrô misturado com De Palma e com thriller erótico dos anos 90… por que não?”. E assim nasceu “Instinto Fatal”, que também parece um revival dos filmes que enchiam as prateleiras das locadoras no século passado. É a quarta parceria dele com a atriz Charlotte Kirk — sua musa, parceira criativa e, aparentemente, contrato vitalício de protagonista. Depois de anos tentando, a dupla finalmente conseguiu o impossível: fazer um filme que não é ruim, nem ótimo.

Enquanto a polícia tenta entender o massacre inicial, conhecemos Diana (Kirk) e seu namorado Reese (Zach McGowan), que discutem como um casal que já deveria ter terminado há três anos. Eles percebem que Evie (Anna‑Maria Sieklucka) está se mudando para a mansão ao lado. Evie está em Malta, hospedada na casa do padrasto, e Diana enxerga ali uma oportunidade brilhante: Reese deve dinheiro para gente perigosa, e a casa de Evie tem um cofre cheio de riquezas. O plano é simples: seduzir Evie, ganhar sua confiança e depois roubá‑la. Simples… se Reese não fosse um poço de agressividade e instabilidade, e se não houvesse um assassino mascarado circulando por aí.

Charlotte Kirk, sendo bem generoso, não é exatamente uma atriz versátil. Ela já tentou ser camponesa medieval, comandante militar e agora criminosa sedutora — e em todas as versões parece estar interpretando a mesma pessoa com figurinos diferentes. Mas, para surpresa geral, o roteiro de “Instinto Fatal” (que ela mesma coescreveu) finalmente entende suas limitações. Aqui, ela funciona: é sensual, exagerada, performática, e fingir identidades falsas é praticamente a premissa do filme. A sedução dela com Evie é até convincente, e o ciúme crescente de Reese adiciona um tempero de imprevisibilidade que combina com o clima do longa. Eventualmente, as duas mulheres se unem por um segredo sombrio, e a obra mergulha de cabeça na mistura de sexo, violência e melodrama.

Tudo é descaradamente provocativo, gratuito e deliciosamente cafona. As locações em Malta são lindas e ajudam a disfarçar o orçamento que claramente não foi alto. Aliás, o fato de o governo de Malta ter financiado isso é quase um plot twist à parte: nada diz “venha visitar nosso país” como um filme cheio de assassinatos, couro e gente surtando.

Marshall, por sua vez, se diverte como não fazia há tempos. Ele entrega mortes grotescas, sangue para todo lado e um final com uma reviravolta tão absurda que dá a volta e fica boa. Não chega nem perto do nível de Dog Soldiers – Cães de Caça (2002) ou “Abismo do Medo” (2005), mas é, sem dúvida, um passo na direção certa.

No geral, se “Instinto Fatal” fosse comida, seria aquele fast‑food duvidoso que você sabe que não deveria comer, mas come mesmo assim e, no fim, até se diverte.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *