Infância Roubada, 2005 (por Peter P. Douglas)

É se baseando no livro homônimo (Tsotsi) escrito pelo dramaturgo sul-africano Athol Fugard, que Gavin Hood faz sua estreia como diretor em longa-metragem. Um bom filme, mas zero preparado para virar queridinho de campanha publicitária. Para começar, o título já é um trava‑língua para metade do público — e, quando finalmente se descobre como pronunciar, percebe-se que se trata de um drama sobre bandidos de Joanesburgo falando palavrões em tsotsitaal. Não exatamente o tipo de filme que o espectador médio escolhe para “se inspirar” no fim de semana. Também não há estrelas de Hollywood para estampar o pôster, e a ambientação em uma favela sul-africana não ajuda nada.

A trama acompanha seis dias da vida de Tsotsi, um jovem líder de gangue que, após roubar um carro sem olhar o banco de trás, descobre que levou junto o bebê da vítima. Como nunca cuidou nem de si mesmo, muito menos de uma criança, ele passa o filme inteiro tentando decidir se abandona o bebê, devolve o bebê, ou simplesmente tenta não deixar o bebê morrer enquanto a polícia vasculha Joanesburgo atrás dele.

Tsotsi (Presley Chweneyagae) não é o pior nem o melhor do grupo — não tem a crueldade de Butcher (Zenzo Ngqobe) nem a consciência atormentada de Boston (Mothusi Magano) — mas é o líder, o que já diz muito sobre o nível de qualificação exigido para o cargo.

Boston tenta, com a paciência de um santo cansado, ensinar Tsotsi o conceito de “decência”. Pergunta se ele tem nome (afinal “Tsotsi” é apenas uma gíria para “marginal” ou “gângster” na linguagem local), se teve pais, se sabe o que é humanidade. Tsotsi reage a tudo isso com a mesma empolgação de quem assiste tinta secar. Quando finalmente reage, é de um jeito que não inspira exatamente esperança — mas pelo menos mostra que existe algum resquício de humanidade escondido ali, soterrado sob camadas de trauma e impulsividade.

A ignorância de Tsotsi é tão profunda que chega a ser perturbadora. Ele não é um vilão sofisticado à la Don Corleone; é apenas alguém moldado por um ambiente onde a única lógica é sobrevivência. Nada de códigos de honra, nada de estratégia — só necessidades básicas, oportunidades e perigos. Ainda assim, existe um instinto primitivo que nem ele consegue desligar: o choro de um bebê. E é esse detalhe biológico que impede o filme de mergulhar de vez no niilismo.

O clichê do “durão transformado por um inocente” está sempre à espreita, pronto para deixar tudo açucarado, mas Hood conduz a história com firmeza. Ele evita discursos moralistas, não transforma ninguém em filósofo de última hora e deixa que as ações falem por si. Os momentos em que Tsotsi tenta cuidar do bebê são tão desajeitados e angustiantes que beiram o insuportável — e é justamente isso que funciona.

Além do bebê, Tsotsi cruza com um mendigo arrogante em cadeira de rodas, uma jovem viúva que amamenta e precisa ajudá-lo, e seus próprios comparsas, cada um com seu grau de lealdade e caos. A história poderia terminar em desespero total, em punição exemplar ou em um lampejo de esperança — e o filme brinca com todas essas possibilidades até o último plano.

No mundo de Tsotsi, onde AIDS, pobreza e abandono são rotina, esperança é artigo raro. Mas “Infância Roubada” insiste que, mesmo no pior cenário, alguém pode tentar fazer o certo — ainda que tarde demais, ainda que de forma torta. Tsotsi caminha nessa corda bamba até o final, que sugere não uma redenção garantida, mas a possibilidade de um começo. E, considerando de onde ele veio, isso já é quase um milagre.

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