Hot Milk (por Peter P. Douglas)

            Hot Milk (2025), longa-metragem dramático inglês, distribuído pela O2 Play, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 03 de julho de 2025, com classificação indicativa 14 anos e 92 minutos de duração.

            Nos últimos dez anos, a roteirista Rebecca Lenkiewicz consolidou sua reputação com narrativas literárias e intelectuais, centradas na insatisfação e na rebelião feminina. Em filmes como “Desobediência” (2017, coescrito com Sebastián Lelio), “Ela Disse” (2022, dirigido por Maria Schrader) e “Ida” (2013, colaboração vencedora do Oscar com Paweł Pawlikowski), Lenkiewicz constrói heroínas complexas que desafiam o senso comum e revelam verdades ocultas.

            Assim, para sua estreia na direção, Lenkiewicz escolheu adaptar “Hot Milk”, um romance incisivo de Deborah Levy, outra autora cujo trabalho é frequentemente impulsionado pela insatisfação feminina latente.

            Enquanto os filmes anteriores de Lenkiewicz frequentemente retratavam mulheres presas em mundos restritos — a comunidade judaica ortodoxa, o clube masculino de Hollywood, a Polônia comunista —, “Hot Milk” oferece uma variação sombria dessa fórmula.

            O filme explora a dinâmica emaranhada de três mulheres aprisionadas em suas próprias psiques. Sofia (Emma Mackey), uma estudante de antropologia na casa dos vinte anos, viajou com sua mãe codependente, Rose (Fiona Shaw), para uma decadente cidade litorânea espanhola. Essa viagem é uma última e desesperada tentativa de curar a dor crônica e incapacitante de Rose.

            Enquanto Rose se submete a tratamentos caros com o enigmático Dr. Gomez (Vincent Perez), um curandeiro alternativo que opera em uma clínica com paredes de vidro em um deserto semi-industrial, Sofia passa os dias vagando pelas praias de pedras e nadando no mar infestado de águas-vivas.

            Um encontro casual com a costureira de espírito livre Ingrid (Vicky Krieps) desencadeia um caso apaixonado, despertando os sonhos reprimidos de Sofia por uma vida mais independente. Contudo, logo fica evidente que a aparentemente liberta nova amante de Sofia também carrega uma história familiar problemática, e que Rose e Ingrid podem ter mais em comum do que se percebe à primeira vista.

            Adaptar ficção literária para o cinema é uma empreitada complexa. O simbolismo denso, as alusões mitológicas e a profunda interioridade que conferem ao romance de Levy seu poder sutil não são fáceis de transpor para a tela. Apesar de sua clara afinidade com o material, Lenkiewicz falha em traduzir visualmente a luta interna de Sofia, deixando Mackey presa a uma série de caminhadas pesadas sobre cascalho. Consequentemente, quando a sofrida compostura de Sofia se rompe em momentos de destruição imprevisível, essas explosões parecem abruptas. Enquanto isso, sem a mediação de uma voz autoral irônica, a normalmente excelente Krieps é relegada a uma personagem que se aproxima perigosamente do clichê da “menina dos sonhos maníaca” – com seu cavalo, lenço na cabeça e tudo mais.

            Como a personagem mais vocal do filme, Rose, interpretada por Shaw, se destaca, oscilando com humor negro entre insultos cortantes e autopiedade melancólica. Embora Shaw consiga as melhores falas (e as saboreie), “Hot Milk” parece suspenso em um estado constante de expectativa, nunca alcançando a libertação que nós – e os exaustos personagens – almejamos. Como os apartamentos inacabados pelos quais Sofia passa em suas idas diárias à praia, o filme parece de alguma forma incompleto, a casca de algo promissor, deixado inacabado.

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