Hey Joe (por Peter P. Douglas)

Hey Joe (2021), longa-metragem italiano de drama, distribuído pela Pandora Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 05 de março de 2026, com classificação indicativa 16 anos e 117 minutos de duração.

“Lutei em três guerras. Na Europa, na Coreia e no Vietnã.” É assim que Dean Barry, interpretado por James Franco, se apresenta em “Hey Joe”, de Claudio Giovannesi — como se estivesse lendo seu currículo no LinkedIn da tragédia. Ele é o veterano americano clássico: alcoólatra, deprimido, emocionalmente falido, devendo pensão, morando num canto esquecido de Nova Jersey e prestes a perder até o direito de respirar sem autorização judicial. Estamos em 1971, mas Dean parece preso em 1944, 1952 e 1968 ao mesmo tempo.

O que o tira desse torpor digno de propaganda de antidepressivo é uma carta da Cruz Vermelha que ficou perdida por anos — porque, claro, até o destino tem preguiça de lidar com ele. A carta informa que uma mulher italiana morreu e deixou um filho chamado Enzo. Sim, Dean tem um filho na Itália. Sim, ele só descobre isso décadas depois.

O filme abre com imagens de soldados americanos vagando pelos escombros de Nápoles em 1944, como se estivessem procurando onde deixaram a dignidade. Um flashback longo apresenta o romance relâmpago entre Dean e Lucia, que dura o suficiente para gerar um filho e zero responsabilidade. Vinte e cinco anos depois, Dean decide vender seu Mustang 1966 — o único amor verdadeiro da vida dele — para voltar à Itália e encontrar o herdeiro surpresa.

Ao chegar, ele encontra uma Nápoles que parece ter sido bombardeada ontem. Ajudando-o está Bambi, interpretada pela maravilhosa Giulia Ercolini. Dean, claro, reage como um americano dos anos 70 reagiria: com confusão, desconforto e uma pitada de ignorância. Mas os dois acabam criando um vínculo, porque nada une mais do que traumas e prostituição ocasional.

Quando finalmente encontra Enzo (Francesco Di Napoli), o reencontro é tudo menos emocionante. O garoto faz parte da criminalidade local, cresceu sob o comando do padrasto Don Vittorio (Aniello Arena), um mafioso tão simpático quanto uma colonoscopia sem anestesia. Dean tenta conquistar o filho pagando dívidas, ajudando no contrabando e até comprando sua liberdade — porque, aparentemente, na Itália dos anos 70, você podia literalmente comprar um adolescente da máfia como se fosse um eletrodoméstico.

Enzo, porém, não está muito interessado em abraços paternos. “Não tenho escolha, é a minha vida”, ele diz, enquanto Dean tenta convencê-lo a fugir para a América, onde o sonho é lindo, mas a realidade é feita de fast-food e guerras intermináveis.

Giovannesi entrega momentos belíssimos, como a cena em que pai e filho comparam cicatrizes — Dean com as marcas da guerra, Enzo com as marcas das ruas. É poético, é simbólico, é bonito… e dura pouco, porque logo o filme volta a tropeçar no próprio roteiro. A história quer ser profunda, mas às vezes parece tão simplificada que dá vontade de perguntar se cortaram páginas do script para economizar papel.

O choque cultural é evidente: o romantismo ingênuo do veterano americano contra o pragmatismo brutal do jovem napolitano. A América pós-Vietnã tentando vender esperança enquanto a Itália pós-guerra tenta sobreviver ao caos. É uma metáfora interessante, mas o filme não se aprofunda o suficiente para realmente explorá-la. O final tenta ser consolador, mas deixa aquela sensação de “é só isso mesmo?”.

No fundo, “Hey Joe” parece um duelo entre dois cinemas: de um lado, o anti-herói americano dos anos 70, cheio de culpa, álcool e monólogos existenciais; do outro, o neorrealismo italiano, com pobreza, máfia e tragédia cotidiana. James Franco tenta canalizar Schrader, Scorsese e Coppola ao mesmo tempo, enquanto o filme tenta dialogar com Cavani e Malaparte. É ambicioso, é bonito, mas às vezes parece que cada lado está falando uma língua diferente — e ninguém trouxe legenda.

O diretor de fotografia Daniele Ciprì, porém, faz milagre. Ele mistura as cores, os tons e as tradições cinematográficas com tanta habilidade que você quase esquece que o roteiro está tropeçando atrás. Visualmente, o filme é um espetáculo. Dramaticamente, é um veterano mancando.

No fim, “Hey Joe” é um filme cheio de boas intenções, momentos fortes e estética impecável — mas que, assim como Dean Barry, parece emocionalmente perdido, tentando encontrar um filho, um propósito e um roteiro mais profundo.

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