
Feliz Aniversário em Belgrado (Kelti AKA Celts, 2026), longa-metragem sérvio de drama, distribuído pela Pandora Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 26 de fevereiro de 2026, com classificação indicativa 18 anos e 105 minutos de duração, dirigido por Milica Tomovic.
Marijana (Dubravka Kovjanic) acorda e começa a se masturbar enquanto seu marido (Stefan Trifunovic) está no banho. O homem sai do banheiro e, cuidadosamente, se retira na ponta dos pés enquanto ela geme debaixo dos lençóis. Um retrato perfeito da vida conjugal em Borca, subúrbio de Belgrado que não sabe se quer ser cidade, interior ou apenas um lugar onde nada funciona direito.
Estamos em 1993, época em que a Sérvia colecionava guerras, inflação e políticos que pareciam competir para ver quem arruinava o país mais rápido. Nesse cenário encantador, Marijana e a sogra preparam sanduíches de margarina com picles para a festa de oito anos de Minja (Katarina Dimic), cuja maior alegria é vestir uma fantasia caseira de Raphael das Tartarugas Ninja. Enquanto isso, a irmã adolescente Tamara (Anja Dordevic) está trancada no quarto ouvindo punk no último volume, porque nada diz “rebeldia” como ignorar a própria família. O pai, por sua vez – um táxista -, pede um cachorro emprestado aos vizinhos para as crianças brincarem — porque, aparentemente, até o animal de estimação é alugado.
Quando a noite chega, a festa infantil de aniversário vira também um encontro de adultos que claramente não deveriam beber juntos. O irmão (Nikola Rakocevic) médico de Marijana traz uísque, o cunhado (Jovan Belobrkovic) aparece com cerveja e um penteado anarco-punk que parece ter sido montado com cola escolar, e Zaga (Nada Sargin) surge com a nova namorada só para provocar a ex. Um ambiente perfeito para discussões, ressentimentos e aquele tipo de confusão que só famílias Balkans conseguem produzir com tanta naturalidade.
Marijana, que já ouviu todas essas conversas repetidas vezes, vai se desligando aos poucos. Em determinado momento, simplesmente sai da festa — e ninguém percebe, o que diz muito sobre o nível de atenção coletiva.
O filme acompanha tudo isso como um catálogo de frustrações domésticas: a mulher que quer algo além de uma vida de sanduíches e masturbações matinais; a menina que só quer que alguém admire sua fantasia torta; o garoto tímido que queima a calça tentando limpar uma mancha; o marido que se sente ameaçado porque a esposa cortou o cabelo curto. Pequenos dramas que, juntos, formam um retrato bem-humorado de uma família tentando sobreviver ao próprio cotidiano.
Mas há também o pano de fundo histórico: a geração de Minja — e da própria diretora — crescendo em um país que ainda hoje é comandado pelas mesmas figuras que destruíram tudo nos anos 1990, agora reembaladas com discursos “moderados”.
A construção do filme segue o ritmo da festa: caótica, cheia de idas e vindas. A fotografia, a direção de arte, a música e a montagem criam um ambiente onde nostalgia e amargura caminham lado a lado. Há conflitos, paixões mal resolvidas, invejas e, surpreendentemente, momentos de conexão. O elenco, formado em grande parte por atores menos conhecidos, reforça a sensação de que estamos vendo algo próximo demais da realidade.
Não se engane com o título em português, pois “Feliz Aniversário em Belgrado” retrata a desesperança de um povo que parece não ter por onde seguir. Ao fim, resta aquele gosto amargo que funciona como aquela pedrinha incômoda no sapato: pequeno, mas impossível de ignorar.















