
Em Eternidade, um triângulo amoroso acontece no lugar menos esperado: o Além. A partir desse conceito fantasioso, nasce uma comédia romântica ousada e emocionante, uma jornada por uma visão encantadora e pop da existência pós-terrena e de como avaliamos uma vida inteira de amor e felicidade.
Quando Larry Cutler (Miles Teller) morre inesperadamente antes de sua esposa Joan (Elizabeth Olsen), ele fica chocado ao despertar em uma estação caótica, onde vendedores agitados oferecem um suprimento infinito de possíveis vidas após a morte. Ali, descobre com sua Consultora do Além (Da’Vine Joy Randolph) que tem apenas uma semana para encarar o dilema definitivo: onde e com quem passar a eternidade. Mas, ao chegar logo depois, Joan encontra seu primeiro amor, Luke (Callum Turner), que esperou em um limbo por 67 anos para ficar com ela. Joan se vê diante de uma escolha impossível entre o homem com quem passou a vida toda e o homem que lhe promete a vida que poderia ter sido.
A questão central dos encantos de Eternidade é o que, para cada um de nós, pode dar à Doce Vida Após a Morte sua doçura irresistível. Iluminado por atuações vibrantes de um elenco central irresistivelmente carismático, o diretor David Freyne cria uma visão fresca, divertida e absolutamente romântica do pós-vida, na forma de um playground visualmente deslumbrante dos sonhos humanos e cenário para a maior decisão que alguém pode enfrentar.
As regras dessa vida após a morte ficam claras rapidamente. Cada recém-chegado aterrissa, atordoado e confuso, à Intersecção, uma mistura entre uma grande estação ferroviária, um centro de convenções e um hotel da metade do século passado. Com a mesma aparência que tinham na idade de seu ápice de felicidade na vida, os recém-falecidos são bombardeados por outdoors, anúncios e vendedores cheios de lábia oferecendo opções para a eternidade: do Mundo Sem
Homens ao Mundo Capitalista, do Mundo do Surfe ao Mundo da Infantilização. Mas, uma vez escolhido seu destino eterno, não há volta. E, se você não conseguir escolher, terá de aceitar um trabalho de serviço na Intersecção, morando em um pequeno apartamento malcuidado até estar pronto para seguir adiante.
Visões de reinos celestiais de um tipo ou outro há muito atraem cineastas ambiciosos, de Ernst Lubitsch e Powell & Pressburger a Warren Beatty e Albert Brooks. Em Eternidade, Freyne abraçou essa história, dando uma piscadela divertida para os muitos filmes que olharam para o alto antes. Mas ele também adotou sua própria abordagem encantadoramente artesanal para criar uma próxima vida que traz à tona tudo aquilo que desejamos neste mundo. Pois, no coração da Intersecção, está um shopping center abrangente, oferecendo todas as obsessões humanas, devaneios e finais felizes que já despertaram o interesse de alguém. Ele foi projetado para fazer as pessoas entrarem e saírem o mais rápido possível.
A intensa construção do mundo, para um universo que não poderia depender de quase nada além da imaginação solta, levou Freyne até seus limites criativos. Mas sua âncora para a narrativa foi um toque leve como nuvens, cheio de ternura pelos personagens no centro da história. “Adorei trabalhar com essa grande tela, construir a arquitetura da Intersecção e brincar com possibilidades infinitas para todas as eternidades”, diz Freyne. “Mas nunca perdi de vista que queria celebrar o amor em suas muitas formas, mostrar como nossa ideia de amor muda com o tempo e levar o espectador à escolha impossível de uma mulher dividida entre dois homens que, em momentos diferentes, significaram tudo para ela. Tive a chance de dizer tudo o que sempre quis dizer sobre amor e vida.
Do Éter à Black List
Em 2022, o roteiro de Patrick Cunnane para Eternidade disparou para o topo da famosa Black List de Hollywood, que reúne os roteiros mais queridos ainda não produzidos. A visão de Cunnane sobre um posto avançado fantasioso do além, que espelhava de perto as questões terrenas, foi uma leitura muito divertida, com duas histórias de amor emocionantes em um cabo de guerra no centro. Contudo, essa fábula romântica elegante tinha obstáculos evidentes. Para começar, era uma história rara que exigia uma visão total absoluta para sequer sair do papel.
Para sua surpresa, essa visão veio para Freyne instantaneamente. O escritor e diretor irlandês havia se destacado com a aclamada comédia de amadurecimento Meus Encontros com Amber (2020). Mas ele nunca tinha se aproximado de algo como Eternidade em termos de escala inventiva. “Tive uma reação instintiva e emocional à essência da história, que fez meu cérebro disparar”, lembra Freyne.
A partir daí, a exuberância tomou conta. “Desde o começo, tive essa ideia completa da Intersecção como um centro burocrático brutalista que abrigava uma caótica feira turística de eternidades. Tudo cercado por cenários compostos de fundos pintados”, recorda Freyne. “Todo tipo de ideia veio à tona… tudo ficou estranhamente cristalino.”
Freyne continua: “Imaginei esse centro como um ambiente de pressão intensa para aumentar a angústia da decisão impossível de Joan. Para mim, era vital que, por mais assustadora que fosse a escolha para a personagem, não houvesse certo ou errado. Não há mocinho nem vilão. Adoro a ideia do público discutindo se ela fez a escolha certa ou não”.
Embora veja a ideia com ceticismo, Freyne admite que parecia Destino, com D maiúsculo. “Sempre sonhei em fazer comédias românticas no estilo de Lubitsch, Wilder e Sturges”, diz ele. “Adoro aquela época em que as pessoas acreditavam que comédias românticas podiam dizer tudo, podiam ser os filmes mais profundos, não importa quanto sua abordagem fosse leve. E aqui estava minha chance. Eternidade pode se passar no além, mas o que mportava para mim é que os personagens estão presos em conflitos que parecem muito humanos e próximos das nossas experiências.”
Ainda assim, Freyne tinha dúvidas se os produtores Trevor e Tim White confiariam o grande escopo do filme a “um pequeno cineasta indie irlandês”. Acontece que os irmãos White ficaram tão encantados com suas ideias que lhe entregaram as rédeas criativas com entusiasmo. “Trevor, Tim e Pat foram incrivelmente generosos ao me convidar como corroteirista e diretor”, diz Freyne. “Não
importava que eu sugerisse esquisitices ou que as mudanças fossem grandes, eles me ofereceram todo o seu apoio, e isso me deu muita confiança.
Conforme Freyne finalizava uma reescrita e mergulhava em uma fase elaborada de design, um novo impulso de confiança veio quando os atores começaram a reagir ao roteiro. Miles Teller, aclamado por trabalhos que vão do intenso drama Whiplash – Em Busca da Perfeição (2014) ao blockbuster Top Gun: Maverick (2022), sentiu-se inspirado a mudar de ritmo para encarnar a humilde tentativa de Larry Cutler de conquistar sua esposa novamente.
“Eternidade foi um dos roteiros mais engraçados que já li na vida, e isso me animou”, lembra Teller. “Havia um tempo que não fazia comédia, e eu tinha esquecido quanto esse gênero de cinema pode ser libertador em seu momento mais criativo. Mas essa é uma daquelas comédias que também tem cenas poéticas e lindas sobre vida, amor e perda, e para mim foi uma combinação poderosa.
Elizabeth Olsen, premiada em Martha Marcy May Marlene (2011) e conhecida mundialmente como a Feiticeira Escarlate, superheroína da Marvel, sentiu seu próprio coração acelerar diante da escolha impossível de Joan. “Esse não é um triângulo amoroso comum, porque Joan precisa tomar uma decisão sobre o amor fora de toda a estrutura normal do tempo e das circunstâncias terrenas”, observa Olsen. “A decisão dela é realmente para sempre desta vez, e eu fiquei muito atraída por esse dilema. Simplesmente adorei que David quisesse levar esses personagens para um mundo de imaginação lindamente cinematográfico.”
O potencial desenfreado para a criatividade também foi um atrativo para Callum Turner, o jovem carismático visto nas séries Mestres do Ar (2024) e The Capture (2019) e na saga cinematográfica Animais Fantásticos. “Eternidade é uma comédia visualmente incrível e brilhante que leva seus personagens em uma jornada emocional”, diz Turner. “Esse é o tipo de filme que todo o mundo ama, mas que, dizem, ‘ninguém mais faz’.”
Larry & Joan e Joan & Luke
O que vale mais: a eletricidade ardente da paixão juvenil avassaladora ou a devoção constante de décadas juntos? Esse é o debate que Joan Cutler trava consigo mesma ao perceber que tanto seu primeiro quanto seu segundo marido desejam passar a eternidade ao seu lado.
Para dar vida às opções de Joan, Freyne precisava de atores capazes de acender uma química complicada entre três pessoas, repleta das alegrias e tristezas da chama volúvel do amor. Por isso, ele lançou sua rede muito além dos suspeitos habituais. Para Larry e Joan, ele subverteu expectativas ao escolher duas estrelas mais frequentemente vistas em papéis dramáticos intensos ou de ação. Mas a habilidade de Teller e Olsen em habitar o diálogo natural e despreocupado de um
casal junto há muito tempo surpreendeu até o próprio Freyne.
Adoro quando atores fazem algo inesperado. O que mais me animou em Miles e Elizabeth é que já vimos os dois em trabalhos dramáticos incríveis, mas não sei se as pessoas sabem quanto eles podem ser verdadeiramente hilários”, diz Freyne. “Eles são extraordinários ao equilibrar timing cômico com emoções reais. Honestamente, não consigo falar deles sem cair em elogios embaraçosos. Acho que vão surpreender o público nesse filme.”
Teller encarou Larry como um homem comum confiável e com quem as pessoas se identificam, um pai suburbano de bom coração, mas de humor rabugento, que está mais focado em superar os obstáculos do dia a dia do que em mirar nas estrelas — um personagem que se vê um pouco perdido diante da complexidade burocrática da eternidade. “Antes de morrer, Larry era apenas um cara comum de família que amava Joan, e foi isso que apreciei nele”, diz Teller. “Toda a vida dele foi trabalhar duro para fazer a esposa e os filhos felizes. Mesmo na vida após a morte, essa é a única coisa que o motiva.”
A visão de Larry sobre seu próprio casamento leva em conta suas falhas, mas o vínculo permanece profundo, talvez mais do que ele jamais percebeu em seus dias na Terra. Essa devoção silenciosa lembrou Teller de um casal que ele conhece bem: seus avós, que também passaram impressionantes seis décadas juntos. “Pensei bastante na relação deles e, antes da filmagem, passei um tempo apenas observando-os, tentando captar suas dinâmicas”, explica Teller. “Posso dizer com certeza que meu avô sempre esteve disposto a se sacrificar pela esposa, algo belo que Larry compartilha.”
Olsen também refletiu sobre como seria compartilhar seu mundo com o mesmo homem por muito mais tempo do que ela própria viveu. “Miles e eu estávamos muito sintonizados com a ideia de que, em um casamento de 65 anos, trata-se de encarnar um conforto despreocupado e mostrar como eles estão familiarizados com os modos de pensar um do outro”, diz Olsen.
Teller ficou impressionado com a facilidade com que Olsen se encaixou nesse papel. “Ela saiu tão destemidamente da sua zona de conforto”, conta Teller. “Ao mesmo tempo, tinha esse poço profundo de emoção ao qual podia recorrer a qualquer momento. Ela ancora a atuação e o filme na capacidade de amor de Joan.”
Olsen sentiu o mesmo por Teller, criando uma química contagiante na tela. “Miles é um ator notável e tão fisicamente engraçado — o mais lindo foi vê-lo trazer uma adorável patetice ao Larry”, diz
Olsen. “Nós nos divertimos muito fazendo esse filme.
Na tela, o casal está tão conformado um com o outro que, quando Joan vê Luke, seu primeiro amor há muito perdido, na vida após a morte, é tomada pela euforia vertiginosa que o reencontro tardio provoca. Olsen revela Joan mergulhando em uma espécie de crise no além, comparando a vida que levou com todos os caminhos não trilhados.
Ainda assim, apesar da confusão alegre em torno de Luke, Joan realmente ama Larry. “Pode haver a complacência esperada e o revirar de olhos depois de 65 anos, mas muito une Joan e Larry”, diz Olsen. “O que Joan mais ama é o jeito como Larry sempre a apoia e a faz rir. Ele gosta de ser difícil, mas esse é seu charme. Por mais que ela goste de reagir a isso, acha suas pequenas neuroses encantadoras.
Os sentimentos por Luke, por outro lado, surgem de um turbilhão do que poderia ter sido. “Com Luke, Joan sente aquele amor excitante e vertiginoso que você tem antes de realmente passar por todos os grandes obstáculos que enfrenta ao compartilhar a vida com alguém”, diz Olsen. “Joan e Luke nunca tiveram essa chance, então Luke está romantizado na mente dela. Depois de 67 anos, Joan experimenta novamente essa sensação do primeiro amor.
Essa sensação é mais do que evidente para o infeliz Larry. Ele está tão determinado a manter Joan feliz que ver a alegria dela com Luke o faz hesitar. Será que Larry deveria buscar a eternidade com sua esposa se ela ainda está encantada por outro? “Já se passou muita coisa no casamento de Joan e Larry, e Larry sabe disso”, observa Teller. “Mas, quando Larry realmente imagina a eternidade sem Joan, a situação se torna muito séria para ele.”
Quando chegou a hora do tão esperado reencontro de Joan com Luke, Freyne queria que Olsen e Turner entregassem toda a energia possível. Soldado morto em combate em 1953, Luke passou o tempo trabalhando como barman na Intersecção, absorvendo as histórias dos que por ali atravessam. Fisicamente ainda com seus 20 e poucos anos, cheio de sonhos não realizados, Luke continua tão charmoso e confiante quanto quando conquistou Joan nos anos 1950. E ele pretende
fazer isso novamente.
“Callum tem jeito de galã, mas o que me impressionou mais foi como ele se afasta disso para mostrar o coração partido desse homem preso no tempo”, diz Freyne. “Nas mãos erradas, Luke seria só o cara bonito. Mas Callum deu a Luke a profundidade e as inseguranças que eu desesperadamente queria. É tão importante que o amor de Luke e Joan não seja só um amor jovem. Isso seria desmerecê-lo. Foi real, intenso e, no fim, trágico. Callum fez isso transparecer. Ele também provoca algumas das maiores risadas do filme.
“Callum é tão encantador que poderia ter química até com uma pedra”, comenta Olsen. “Mas ele também é generoso e gentil e estava focadíssimo em recriar tudo o que um homem poderia sentir ao se reencontrar com o amor que não via há 67 anos.”
Como Luke, Turner evoca tanto a agitação quanto as dúvidas que surgem quando alguém libera décadas de desejo reprimido. “Quando chegou à Intersecção depois de morrer na Guerra da Coreia, Luke esperava que Joan aparecesse mais cedo ou mais tarde”, diz Turner. “Mas um ano virou dois, dois viraram quatro e assim por diante até que se passaram 67 anos. Todo esse tempo ele se sentiu preso ao desejo por alguém que nunca chegou a conhecer totalmente. Mas, em um
nível mais profundo, Luke continuou esperando por Joan como forma de evitar quem ele poderia se tornar.”
Para Turner, improvisar com Teller e Olsen foi a maior emoção do papel. “Miles é tão vibrante e tão disposto a experimentar coisas novas que você sente que pode se soltar nas cenas com ele sem medo de errar”, diz Turner. “E Elizabeth é daquelas atrizes em que você vê tudo acontecendo em seus olhos. Só de olhar para ela, você vê tudo que Luke esperava em sua chance de existir com Joan na vida após a morte.”
Administração do Além
Quando Larry e depois Joan chegam à Intersecção, são recebidos pelos Consultores do Além, seus guias pessoais para a transição da materialidade terrena para a eternidade despreocupada. Uma mistura de burocratas, agentes de viagem e coaches de vida, esses chamados CAs são também humanos comuns com seus próprios motivos para não seguir adiante — o que faz com que se envolvam nas decisões complexas dos clientes.
Interpretando Anna, que é CA de Larry e não consegue deixar de torcer por ele, está Da’Vine Joy Randolph, a poderosa atriz vencedora do Oscar e indicada ao Tony, que ganhou fama com papéis variados no musical da Broadway Ghost (2012), no filme Meu Nome É Dolemite (2019) e em sua atuação premiada em Os Rejeitados (2023).
Randolph imaginou Anna como um espírito livre que, esteja no além ou não, diz exatamente o que sente sobre a vida e o amor. “Ela trabalha na Intersecção há muito tempo e, embora adore ajudar as pessoas a encontrarem seu caminho na vida após a morte, tem seus próprios segredos”, diz Randolph. “Larry acende um fogo dentro dela — quanto mais ela fica tocada pelo testemunho de amor de Larry, mais entende seus próprios desejos.
Um grande atrativo para Randolph em Eternidade foi a oportunidade de colaborar tão de perto com Teller. “Nós nos divertimos muito descobrindo todas as muitas formas pelas quais Larry e Anna estabelecem uma conexão genuína e sincera”, diz.
Randolph. Teller, por sua vez, afirma que as habilidades de Randolph como atriz tornaram a conexão deles na tela ainda mais poderosa. “Todos sabemos como Da’Vine é uma atriz dramática incrível, mas, neste papel, ela é incrivelmente engraçada e tocante ao mesmo tempo”, diz Teller.
O colega de trabalho de Anna, Ryan, que se conecta com Joan quando ela chega à Intersecção e há muito tempo aconselha Luke, é o oposto de Anna como CA, conduzindo seus clientes com eficiência para a felicidade em sua vida após a morte. No papel, o comediante John Early revela o humor de Ryan, mas também a solidão subjacente de ajudar os outros a alcançarem algo que ele próprio não tem. “Ryan se preocupa com volume. Para ele, é uma competição de números, enquanto Anna não liga para isso”, diz Randolph. “Mas Anna e Ryan também têm seu próprio passado, e John trouxe isso perfeitamente para o personagem porque ele é supertalentoso como comediante e ator.”
Early acrescenta: “Eu tinha de estar afiado porque Da’Vine faz uma comédia física no nível de desenho animado. Ela obviamente é capaz de imensa sutileza e peso dramático. Mas quem diria que ela seria tão engraçada?”.
Para sua atuação, Early mergulhou nos aspectos burocráticos de seu personagem ansioso para agradar. “Adorei interpretar Ryan como o típico tipo gerencial, porque há uma parte de mim na realidade que é Tracy Flick [a implacável candidata à presidência do grêmio estudantil interpretada por Reese Witherspoon em Eleição (1999), de Alexander Payne], e foi catártico brincar com esse lado meu”, diz Early. “Mas também respeito que Ryan tenha um trabalho importante nesse mundo.
As pessoas chegam à Intersecção meio atordoadas, e parte do papel do CA é ajudá-las a aceitar o que aconteceu e a pensar na eternidade como algo real.
O fato de Luke ter se recusado a seguir para sua própria eternidade é uma frustração para Ryan, dando peso a ambos os personagens. “O que os CAs aprenderam é que geralmente é melhor não esperar tanto tempo pelos seus entes queridos”, explica Early. “Simplesmente escolha sua vida dos sonhos. Ryan espera que a chegada de Joan finalmente tire Luke da lista e o faça entrar na eternidade que escolheu.”
Embora Ryan esteja obcecado com a ideia de Luke e Joan para sempre, Early, por sua vez, acredita que há um argumento forte em favor de Larry no complexo triângulo amoroso no coração de Eternidade. “Você preferiria escolher uma fantasia idealizada da sua imaginação ou a coisa real, que contém toda a alegria e dor imperfeita da vida?”, especula Early. “Esse é o cerne filosófico da história. Mas eu acredito que, se Joan escolhesse Luke, ele eventualmente a deixaria louca também. Ele pode ser um herói de guerra lindo, mas não está isento de suas próprias esquisitices, e isso vai aparecer em algum momento.”
As sutilezas nostálgicas dos diálogos entre Randolph e Early deixaram o diretor maravilhado. “Eles são tão engraçados e criaram a sensação de um relacionamento de décadas entre Anna e Ryan. Eles realmente tornaram o filme um trabalho de conjunto.” O primeiro dia em que Teller, Olsen, Turner, Randolph e Early estiveram juntos no set marcou um ponto de virada importante para o diretor. “A química entre todos era simplesmente elétrica”, lembra Freyne. “De repente, percebi que,
se esses relacionamentos funcionam, então tudo pode funcionar.”
Subindo para a Intersecção
Na visão de Freyne para Eternidade, a vida terrestre é vívida e calorosa, mas a Intersecção é chocantemente artificial, um ambiente inteiramente feito de cortinas de fumaça e cenários e perspectivas fabricados. É um universo sem localização definida, claramente construído para fazer os humanos se sentirem mais confortáveis com o fato de não estarem vivos, enquanto os seduz com sua ideia mais arrebatadora de eternidade.
Freyne viu esse mundo dos sonhos como uma tela em branco para exploração. Para ajudá-lo, ele convocou uma equipe inventiva, incluindo o diretor de fotografia Ruairi O’Brien, que filmou Meus Encontros com Amber, a designer de produção Zazu Myers (Meu Eu do Futuro, de 2024) e o premiado figurinista Angus Strathie (Moulin Rouge!, de 2001, Deadpool, de 2016). O esforço da equipe criativa trouxe profundidade, textura e tangibilidade a um reino suspenso entre a fantasia e o caos burocrático cotidiano de um local de trabalho terrestre.
Antes da produção, Freyne criou um extenso lookbook que era um compêndio dos seus filmes favoritos. “Eu tinha em mente o encontro espiritual entre Se Meu Apartamento Falasse (1960), de Billy Wilder, e Neste Mundo e no Outro (1946), de [Michael] Powell & [Emeric] Pressburger, com um pouco de Cantando na Chuva (1952), de Stanley Donen e Gene Kelly, para reforçar, mas visualmente as coisas seguiram um caminho próprio. Mike Nichols, Agnès Varda e Jacques Tati se tornaram referências importantes”, diz Freyne. “Para a Intersecção, imaginei uma estrutura circular brutalista onde as janelas dão para penhascos cenográficos pintados, e o canto dos pássaros é reproduzido por alto-falantes. É um mundo intensamente artificial, completamente voltado para vendas. Há método nessa insanidade e na variedade de anúncios, desde fantasias ultrapassadas até o absolutamente mundano. Tudo é feito para receber os recémmortos e fazê-los sair e para manter o além funcionando.”
A abordagem específica de design do filme veio naturalmente a Freyne, que estudou design de produção em seu mestrado, achando que esse seria seu caminho no cinema. “Adoro contar histórias por meio dos cenários”, confessa Freyne. “Então trabalhar com alguém tão brilhante como Zazu Myers em Eternidade foi meu próprio paraíso pessoal.”
Myers, por sua vez, pegou o lookbook de Freyne e desenvolveu sua própria visão. “O lookbook foi minha forma de entrar imediatamente na cabeça do David”, lembra Myers. “O sentimento romântico dele pelo cinema clássico de Hollywood se tornou o fio condutor de todo o design.”
Myers começou com uma lista de filmes que incluía não apenas os amados Wilder, Sturges e Lubitsch de Freyne, mas também A Primeira Noite de um Homem (1967), de Mike Nichols, Charada (1963), de Stanley Donen, Tudo Que o Céu Permite (1955), de Douglas Sirk, e o documentário da Riviera Francesa de Agnès Varda, Du Côté de la Côte (1958).
Então Myers começou a conceituar a Intersecção como um lugar com uma lógica própria e palpável. “David descreveu a Intersecção como uma peça da arquitetura brutalista dos anos 1960, com uma estação de trem, um pavilhão de exposições e um hotel, tudo embrulhado em uma única estrutura. O desafio para mim foi descobrir como fazer todas essas coisas coexistirem em um mesmo lugar de forma coesa e natural”, diz Myers. “Tivemos que entender como esse lugar funciona como uma máquina burocrática — como o quadro de partidas de trem funciona, como seria o diretório das eternidades. Fizemos até as contas de quantas pessoas poderiam passar pela Intersecção a cada semana, para criar um senso de escala nos nossos projetos.
Depois que Myers e Freyne definiram a estrutura principal, o design dos sets teve que acontecer em ritmo acelerado. “Construímos o cenário principal em sete semanas, principalmente com espuma e materiais reciclados, o que foi tanto ambientalmente amigável quanto econômico”, diz Myers. “Foi preciso muita gente, muitas horas e bastante dedicação e energia, mas o resultado foi um nível de detalhes que, espero, faça o lugar parecer vivo.”
Em contraste marcante com a Intersecção, criar a casa terrestre de Larry e Joan foi uma proposta muito mais acolhedora. “É um tipo de amor que só pode se desenvolver ao longo de uma vida, e isso se tornou nosso fator guia”, diz Myers. “A casa que escolhemos realmente pertence a um casal na casa dos 90 anos que criou nela uma família inteira ao longo dos anos. Então a casa já tinha aquelas camadas inefáveis de tempo e memórias.
De volta à Intersecção, o diretor de fotografia Ruairí O’Brien equilibrou os tons mais leves e sombrios da história, trazendo uma beleza lírica à agitação por meio de seu trabalho com a
câmera.
“Nós começamos com muitos testes de câmera para enxergar diferentes abordagens e começamos a nos inclinar para um visual muito contrastado, cinematográfico”, diz Freyne sobre
sua colaboração com O’Brien. “Decidimos usar lentes anamórficas no pós vida para obter aquele visual cinematográfico, enquanto na Terra optamos por lentes esféricas. Em contraste com a vibração da nossa Intersecção, imaginei nossa Terra com um tom mais lavado, como um filme dos anos 1990. Minha grande referência foi o brilhante Um Dia em Nova York (1996). Ao longo do processo, Ruairí realmente compartilhou minha visão para o filme.”
A atmosfera ao mesmo tempo fantasiosa e realista da Intersecção teve um efeito transportador nos atores. “A Intersecção foi uma sobrecarga sensorial total”, diz Teller. Acrescenta Olsen: “Foi o cenário mais incrível que já vi. A beleza, imaginação e qualidade cinematográfica dele nos
inspiraram”.
O Mercado Eterno
Mais que um ponto de conexão para a vida após a morte, a Intersecção também abriga um amplo mercado oferecendo o último produto que você vai precisar: sua ideia pessoal de felicidade eterna. Proporcionando infinitas digressões cômicas, Freyne se divertiu criando as muitas eternidades à venda na Intersecção, que vão do ridículo ao sublime, cada uma com slogans inteligentes. “Um grande tema do filme é a felicidade.
Não apenas seu momento mais feliz, mas qual é sua ideia de felicidade. Os diversos anúncios foram uma forma divertida de explorar as ideias mais escapistas e específicas”, diz Freyne. “O que eu mais amo quando assisto a uma comédia é encontrar camada após camada de humor. Queria que quem
assistisse a Eternidade pela segunda ou terceira vez fosse recompensado com um detalhe ou piada que passou batido na primeira vez.”
O salão de convenções Eternidade Expo também estimulou a imaginação da equipe de design de produção. “Depois que David nos deu sua lista muito engraçada de nomes e slogans de eternidades, nosso departamento de design gráfico elevou o nível com conceitos publicitários”, diz Myers. “Cada eternidade ganhou sua própria personalidade, estética e gráficos, integrados ao design geral do filme. Parte da diversão foi pensar em como o que as pessoas querem para a eternidade pode mudar com o tempo. Algumas eternidades ficaram tão fora de moda que foram descontinuadas, enquanto outras são tão populares que estão com superlotação.”
À medida que as artes geravam conversas entre elenco e equipe, ficou claro que cada eternidade distinta era o paraíso para uns e o inferno para outros. “Muita gente adorou a ideia do Mundo Espacial”, diz Myers. “Mas uma pessoa confessou que seria seu pior pesadelo de vida eterna.
No filme, Luke e Joan são atraídos pelo Mundo da Montanha como seu teste de eternidade, com suas vistas deslumbrantes de lagos cristalinos e céus. Para realizar essa fantasia alpina
idílica, a equipe de produção escolheu uma localização celestial: Squamish, British Columbia, com suas vistas duplas de Howe Sound e das imponentes Montanhas Costeiras. Transformados em Mundo da Montanha, o casal se instala em uma cabana luxuosa, porém rústica, digna de um melodrama dos anos 1950. “Queríamos dar a essas cenas uma vibe de après-ski inspirada no terraço da montanha em Charada”, diz Myers. “Foi muito divertido.”
O Armário do Além
Quando os recém-falecidos desembarcam dos trens que nunca param na Intersecção, aparecem com as roupas que usavam na hora da morte. Alguns chegam com roupas de hospital, outros com ternos ou paraquedas, indicando uma morte acidental. Mas, uma vez em seus quartos temporários no hotel, cada um descobre um armário dos sonhos abastecido com as roupas queridas de sua vida na Terra.
Para o figurinista Angus Strathie, o desafio de criar roupas que abrangem múltiplas épocas e diferentes faixas etárias foi fascinante. “A ideia principal que norteou tudo foi que essas pessoas deveriam sempre parecer reais ao chegarem, recémfalecidas, à Intersecção”, diz Strathie. “Uma grande parte da diversão do filme é que os personagens são profundamente humanos em um ambiente tão peculiar. Olhamos muito de perto para quem Joan, Larry e Luke eram em vários momentos de suas vidas antes de chegarem à Intersecção.”
Ao longo da história, Olsen passou por mais de duas dezenas de trocas de figurino, incluindo muitos eventos do seu passado que ela encontra nos Túneis do Arquivo. “Joan chega à Intersecção como uma mulher no final dos seus 20 anos. Depois, em flashbacks, a vemos como criança, adolescente, jovem mulher conhecendo Luke e como uma Joan mais suave dos anos 70, quando ela conhece Larry”, diz Strathie. “É um guarda-roupa acumulado de mais de 50 anos de sua vida, e
usamos isso para refletir Joan ficando cada vez mais confortável consigo mesma.”
Para o personagem Larry Cutler, Strathie criou um estilo adequado à sua aparência de pai de meia-idade na vida após a morte. “Larry é meio atrapalhado e neurótico, mas encantador e apaixonado por Joan, então tudo isso influenciou seu estilo”, diz Strathie. “David havia mencionado Dustin Hoffman em A Primeira Noite de um Homem para o visual dele, o que foi um ótimo ponto de partida. Miles trouxe seu próprio toque, focando em pais de vários filmes dos anos 1980.”
A elegância de Luke fez um contraste imediato com o Larry mais desleixado. “Luke é charmoso, jovem e classicamente dos anos 1950”, observa Strathie. “Mas ele tem um guarda-roupa mais limitado porque, assim como Luke está congelado no tempo, suas roupas, também.”
Uma alegria particular para Strathie foi vestir os muitos funcionários da Intersecção, incluindo Anna e Ryan. “Os Consultores do Além têm uma aparência bastante elegante com seus ternos e saias no estilo dos anos 1960”, comenta Strathie. “No caso dos vendedores da eternidade, os homens parecem vendedores de carros usados, e as mulheres, senhoras do Tupperware.
Finalizando Eternidade
Ao encerrar a produção acelerada de 30 dias de Eternidade, Freyne viajou para Londres, mantendo o espírito frenético das filmagens vivo na sala de edição. Reunido com o editor Joe Sawyer, seu colaborador em Meus Encontros com Amber, rapidamente estabeleceu um ritmo de pós-produção. “Joe e eu temos uma ótima conexão e compartilhamos as mesmas paixões tonais. Queríamos encontrar aquele equilíbrio delicado entre a comédia pura e as emoções das histórias de amor”, diz Freyne. “Encontramos o formato do filme de forma notavelmente rápida, o que nos deu mais tempo para trabalhar com os efeitos visuais, o esquema de cores e a música.
A trilha orquestral exuberante e vibrante do filme, que acentua os tons sedutores da narrativa, é de David Fleming, que recentemente ganhou o ASCAP Screen Music Award de Trilha
Sonora de Televisão do Ano em 2024 por The Last of Us.
Descrevendo Fleming como “a próxima grande estrela da composição para cinema”, Freyne buscava uma trilha que tivesse leveza, mas que também fosse épica, grandiosa e clássica. “David Fleming é um verdadeiro contador de histórias com a música. Seja destacando o humor da chegada de Larry à Intersecção ou ressaltando os sentimentos intensos da reunião de Joan e Luke, tudo o que ele criou tem como objetivo expressar o que os personagens estão vivenciando.”
No final de Eternidade, muitos espectadores sairão do cinema se perguntando “Como seria a minha eternidade perfeita?”. É algo que o próprio Freyne não tem dificuldade em decidir: “Se eu tivesse que partir prematuramente, escolheria o Mundo Eternidade como meu destino na vida após a morte. Gostaria de poder continuar fazendo este filme para sempre — essa é a minha ideia de felicidade”.
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