
Entre Dois Mundos (Le Quai De Ouistreham AKA Between Two Worlds, 2021), longa-metragem dramático francês, distribuído pela Pandora Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 29 de maio de 2025, com classificação indicativa 12 anos e 106 minutos de duração.
Emmanuel Carrère é conhecido principalmente como autor de não ficção, mas sempre se interessou por cinema e televisão. Sua estreia como diretor ocorreu em 2005 com “O Bigode” (2005), uma adaptação de seu próprio livro. Em seu segundo projeto cinematográfico, transforma o ensaio autobiográfico “Le Quai de Ouistreham”, da jornalista Florence Aubenas, no drama “Entre Dois Mundos”.
O filme segue a escritora francesa Marianne Winckler (Juliette Binoche), que abandona sua vida confortável em Paris para realizar um experimento social. Como parte da pesquisa para seu próximo livro, ela aceita um emprego de faxineira com salário mínimo, mergulhando na realidade da classe trabalhadora. Ao longo da jornada, Marianne constrói laços com suas colegas Chrystèle (Hélène Lambert) e Louise (Louise Pociecka), compartilhando suas dificuldades e se integrando discretamente à dinâmica do ambiente de trabalho.
Carrère adota um estilo de filmagem direto e sem artifícios, conferindo ao filme uma autenticidade cinematográfica próxima ao documentário. Essa abordagem se encaixa perfeitamente na narrativa, lembrando o trabalho do cineasta Ken Loach, que também explora a economia em seus longas onde critica à sociedade moderna.
Aqui, o filme se distancia do tradicional drama de pia de cozinha e se aproxima de um drama de mictório, com Marianne esfregando porcelana ao lado de suas colegas, enquanto mantém em segredo sua verdadeira situação. A única vez em que a direção se afasta dessa naturalidade para um toque mais experimental ocorre em uma breve transição que revela um vislumbre da vida pessoal de Marianne.
No entanto, à medida que a trama se aprofunda, o filme se torna previsível e começa a parecer explorador das condições que busca iluminar. Outros dramas do gênero funcionam melhor quando permitem que o público se conecte genuinamente com os protagonistas, mas a escolha de uma personagem fraudulenta como centro da narrativa acaba gerando um dilema.
Com um monólogo interno que revela seu processo de pensamento, Juliette Binoche entrega uma atuação profundamente introspectiva. A frieza calculada de Marianne dificulta uma conexão plena com a personagem, mas há humanidade suficiente em sua interpretação para torná-la cativante. Ao seu lado, Hélène Lambert brilha em sua estreia nas telas, oferecendo um desempenho marcante no papel coadjuvante.
Em resumo, “Entre Dois Mundos” apresenta um comentário bem elaborado sobre os desafios enfrentados pela classe trabalhadora, reforçado por atuações excelentes. Sua relevância se torna ainda maior diante da atual crise do custo de vida. No entanto, a perspectiva questionável de sua protagonista faz com que o filme se aproxime excessivamente da chamada “pornografia da pobreza”, sem alcançar o impacto emocional esperado para esse tipo de narrativa.













