
É Tempo de Amoras (The Taste of the Blackberry, 2024), longa-metragem nacional de comédia dramática, distribuído pela Elo Studios, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 26 de fevereiro de 2026, com classificação indicativa 10 anos e 112 minutos de duração.
Há filmes que se aproximam devagar, como quem toca a borda de um lago antes de entrar. “É Tempo de Amoras” da diretora Anahí Borges, nasce desse gesto suave: uma lembrança guardada pela diretora (em suas andanças pelo bairro do Horto Florestal, em São Paulo, e visitas ao Abrigo dos Velhinhos Frederico Ozanam), transformada em caminho para duas personagens que se encontram quando nada parecia apontar para isso.
Pasqualina (Rosamaria Murtinho), aos 91 anos, vive em uma casa de repouso onde o tempo parece andar em círculos. Ao lado de Tereza (Bárbara Bruno), sua amiga e confidente, fazem refeições, assistem tv, tomam sol ao ar livre. Há algo em Pasqualina que não se acomoda, um chamado antigo que insiste em permanecer. Um dia, ela decide seguir esse chamado: reencontrar Mauro (Antônio Pitanga), seu ex-noivo e grande amor do passado. A fuga não tem nada de grandiosa; é apenas um passo depois do outro, como quem tenta recuperar algo que ficou esquecido no bolso de um casaco antigo.
No meio desse percurso, surge a filha da enfermeira Irene (Jessica Córes), a jovem Petrolina, ou Pety (Analu Reis), com seus oito anos e uma imaginação (inclusive para experimentos e poções) que parece maior do que o mundo ao redor. A menina sente falta de algo que nunca teve (principalmente após um trabalho de escola), e Pasqualina carrega algo que teme ter perdido. As duas se encontram (entre máquinas de lavar e aspiradores de pó antigos) como quem tropeça em um fruto maduro caído no chão: inesperado, mas inevitável. A partir daí, tudo se transforma sem pressa, sem ruídos, sem a necessidade de grandes explicações. Uma quer uma avó. A outra quer um sentido. E, por um instante, ambas acreditam que isso pode acontecer.
Pety já havia vivido outras aventuras nas obras de Anahí Borges, e aqui ela retorna como se carregasse um fio que une todas essas histórias. Não há grandes conflitos, apenas escolhas que levam as personagens a lugares onde o afeto pode florescer sem pedir permissão. A diretora fala sobre desejo — o da menina, o da idosa, o do espectador que acompanha as duas — e transforma esse desejo em matéria de cinema.
Há momentos em que Pasqualina parece ouvir algo que ninguém mais escuta. Há momentos em que Pety, ao lado do amigo Zezinho (Rafael Pereira), inventa mundos inteiros com a naturalidade de quem ainda acredita que tudo pode acontecer. E, entre essas duas formas de existir, surge algo raro: a sensação de que o cotidiano pode guardar pequenas maravilhas, mesmo quando parece comum demais.
O filme se move como quem recolhe amoras pelo caminho: uma aqui, outra ali, até que, sem perceber, temos um punhado delas nas mãos. Não há antagonistas, apenas a vida com suas curvas e desvios. E, no fim, o que permanece é essa ligação improvável entre duas pessoas que, por um breve instante, encontraram no outro aquilo que faltava.
“É Tempo de Amoras” é feito desse encontro — inesperado, doce, cheio de pequenas descobertas. Um filme que convida o espectador a lembrar que, às vezes, o que transforma tudo não é o extraordinário, mas aquilo que passa diante de nós quando estamos atentos o suficiente para perceber.















