
Dracula (2025), longa-metragem de comédia e drama, coprodução Romênia, Áustria e Luxemburgo, exibido durante a 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (2025), com classificação indicativa 18 anos e 170 minutos de duração.
O filme dirigido por Radu Jude parece ter sido feito para irritar quem espera qualquer coisa parecida com uma adaptação tradicional. E isso não é um defeito — é o ponto de partida.
A obra começa com uma sequência de imagens geradas por inteligência artificial, com versões de Vlad, o Empalador, dizendo absurdos para a câmera. A partir daí, o que se vê é uma colagem de esquetes, digressões, piadas, trechos de outros filmes, cenas de teatro mambembe e até um musical improvisado.
Tudo gira em torno da figura do vampiro mais famoso do mundo, mas o que interessa a Jude é menos o personagem e mais o que ele representa: um símbolo que já foi usado de todas as formas possíveis, e que agora serve como desculpa para falar de tudo — da Romênia, da Europa, da arte, do trabalho, da tecnologia, da política.
Há um fio condutor, ainda que frouxo: um cineasta sem inspiração tenta fazer um filme sobre Drácula usando inteligência artificial. O resultado é um Frankenstein de referências, com trechos que parecem ter saído de outros projetos e foram costurados aqui com cola quente.
Em um momento, um Drácula sindicalista tenta impedir uma greve; em outro, um casal de atores é perseguido por turistas em uma cidade da Transilvânia. Há ainda uma adaptação de uma novela romena obscura sobre vampiros, que ocupa boa parte do tempo.
O filme tem quase três horas e não esconde que quer cansar. Algumas partes funcionam como piada interna para quem conhece o cinema de Jude ou a história política da Romênia. Outras são escancaradamente escatológicas, como uma sequência com campos cheios de falos ou zumbis que se desfazem em névoa. O humor varia entre o erudito e o vulgar, e nem sempre acerta. Mas há algo de fascinante na forma como Jude se recusa a seguir qualquer linha reta.
O uso de inteligência artificial não é só tema, mas ferramenta. Algumas imagens são deformadas, outras parecem feitas por alguém que não sabe o que está fazendo — e isso é intencional. Jude não quer que o filme pareça bem acabado. Ele quer que pareça um rascunho, um experimento, um erro que se estende por quase 170 minutos.
“Dracula” não é um filme para todos. Ele exige paciência, repertório e uma certa disposição para o absurdo. Mas para quem entra no jogo, há momentos de riso, desconcerto e até alguma reflexão sobre o que significa contar histórias hoje, quando até os monstros clássicos já foram usados até a exaustão.















