Dog Soldiers – Cães de Caça (por Peter P. Douglas)

Faz mais de 20 anos que eu e meu irmão entramos numa locadora procurando, sem nenhum critério, um filme de terror com lobisomens. Escolhemos o que estava disponível, sem saber nada além do que aparecia na capa. E a escolha acabou sendo o filme estadunidense, “Dog Soldiers – Cães de Caça” (2002), dirigido por Neil Marshall. Quando seus 105 minutos de duração terminaram, estávamos empolgados e falando sem parar sobre o quanto o filme tinha nos surpreendido. A sensação era de ter descoberto algo especial meio por acaso.

É difícil cravar se esse é o melhor trabalho do diretor, até porque “Abismo do Medo (2005)” também é excelente e talvez tecnicamente mais refinado. Mas a verdade é que, em termos de diversão e impacto, “Dog Soldiers” tem algo bruto e direto que funciona muito bem. O filme tem limitações evidentes, principalmente por causa do orçamento, e dá pra ver que o Marshall ainda estava encontrando o próprio estilo. Só que isso não atrapalha — na verdade, até ajuda. O que poderia ser apontado como falha acaba virando parte do charme.

Uma das coisas que fazem o filme funcionar tão bem é o grupo de personagens. Os soldados parecem realmente ter vínculo, o que torna a situação que enfrentam ainda mais difícil de assistir. O jeito que eles falam soa natural, com um humor estranho, meio ácido, que parece espontâneo. Sean Pertwee se destaca, e Liam Cunningham, como sempre, impõe presença mesmo nos momentos mais sutis.

Marshall conseguiu criar algo parecido em “Abismo do Medo”, só que lá a dinâmica entre o grupo tem um lado mais tóxico, mais carregado de tensão emocional. Ele gosta de explorar grupos em ambientes fechados e colocar monstros no caminho — isso é recorrente no trabalho dele. Mas não sei se ele já conseguiu superar o que fez com os lobisomens nesse filme. O design das criaturas, os efeitos práticos, tudo tem um impacto muito forte, especialmente em comparação com o que se vê hoje, cheio de CGI.

A ambientação nas Terras Altas da Escócia (mesmo tendo sido filmado em Luxemburgo) contribui para a sensação de isolamento. A ideia do exercício militar que vira um pesadelo funciona, e a escalada da violência é rápida. Quando os personagens se abrigam numa casa com ajuda de uma zoóloga, você sabe que a tensão só vai piorar — e piora mesmo. Os lobisomens cercam o lugar e tudo vira uma luta desesperada pela sobrevivência.

O filme é sangrento, intenso e ainda consegue ser engraçado em alguns momentos, mas sem perder o peso do que está em jogo. Marshall acertou na escolha de usar dançarinos como lobisomens, o que dá uma movimentação estranha e quase elegante às criaturas. E o trabalho de câmera reforça isso, com ângulos que valorizam a escala dos monstros sem precisar recorrer a truques exagerados.

A trilha sonora de Mark Thomas também merece destaque — é mais épica e emocional do que se esperaria de um filme desse tamanho. Ela dá força às cenas de ação e ajuda a carregar a tensão nos momentos mais dramáticos.

Reassistir “Dog Soldiers – Cães de Caça”, depois de tanto tempo continua sendo uma experiência muito divertida. O filme é um exemplo de como um bom roteiro, bons personagens e criatividade podem fazer muito, mesmo com poucos recursos.

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