De Volta À Bahia (por Peter P. Douglas)

De Volta à Bahia (2025), longa-metragem nacional de drama e romance, distribuído pela Swen Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 05 de março de 2026, com classificação indicativa 10 anos e 98 minutos de duração.

Dirigido por Eliezer Lipnik e Joana Di Carso, “De Volta à Bahia” tenta ser uma comédia romântica, mas acaba funcionando mais como um teste de resistência emocional. É aquele tipo de filme que faz você repensar suas escolhas de vida, especialmente a escolha de apertar “play”. A mistura de romance, breguice assumida e Bahia — uma das cidades mais ricas culturalmente do país — deveria render algo divertido. Mas o filme se perde tão rápido que parece que alguém deixou o GPS narrativo desligado. Em vez de contar uma história, a obra parece um comercial institucional de três horas, com drones sobrevoando praias, coqueiros, mar azul e tudo o que o Google Imagens já mostrou melhor.

A trama acompanha Maya (Bárbara França) e Pedro (Lucca Picon), dois surfistas órfãos (porque claro, drama precisa de órfãos), que sonham em competir num campeonato e acabam se apaixonando enquanto lidam com traumas e decisões de vida. A trama promete, mas o filme não entrega absolutamente nada além de paisagens bonitas e diálogos que soam como briefing de agência de publicidade.

A abertura já dá o tom: um drone passeando por São Paulo, seguido de um podcast tão artificial que parece ter sido escrito por um algoritmo mal-humorado. Depois, pessoas assistindo ao podcast no celular — porque o filme realmente quer que você saiba que ele é “moderno”. É tudo muito plástico. A barraquinha de açaí, por exemplo, parece ter sido montada cinco minutos antes da filmagem, com a mesma autenticidade de um cenário de shopping.

A estética publicitária continua firme e forte: Pelourinho, Farol da Barra, acarajé, tudo exibido como se fosse catálogo turístico. Só que a exaltação é tão forçada que vira o oposto do que pretende. A cena final, com pôr do sol e narração brega, é praticamente um meme pronto.

Diferente de outros filmes que respiram Bahia em cada quadro, “De Volta à Bahia” não imprime personalidade nenhuma à cidade. Os drones esvaziam qualquer dramaticidade, a trilha sonora repetitiva de André Whoong sufoca o filme, e falta absolutamente tudo: silêncio, pausa, emoção, e até o campeonato de surf que deveria ser o clímax. E o romance? Bom… além de Pedro salvar Maya de um afogamento e ambos serem bonitos, não existe motivo algum para torcer por eles. Mas o filme insiste, com personagens secundários perguntando o tempo todo se eles já se beijaram, como se isso fosse resolver a falta de química.

Os coadjuvantes são ainda mais vazios: o mentor com discurso de coach, a influencer que não serve para nada, e pais que até tentam, mas que irritam e soam tão artificiais quanto o resto. Os arcos narrativos evaporam no ar.

Salvador é vibrante, viva, pulsante — tudo o que o filme não consegue ser. Crescemos assistindo novelas e aceitamos exageros, mas não aceitamos personagens vazios, cenários bonitos sem alma e uma narrativa que parece ter sido escrita por alguém que nunca pisou na Bahia. E é exatamente isso que “De Volta à Bahia” entrega: beleza sem vida, romance sem química e uma Bahia que não existe.

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