De Idylle (por Casal Doug Kelly)

Idílico (De Idylle AKA Idyllic, 2025), longa-metragem holandês (Paises Baixos) de comédia dramática, exibido durante a 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (2025), com classificação indicativa Livre e 99 minutos de duração.

O filme se diverte com o absurdo da vida e da morte, sem pedir licença nem desculpas. Aaron Rookus junta uma família que parece ter sido desenhada para o caos: uma cantora lírica com diagnóstico terminal, um psiquiatra recém-saído do armário tentando entender o que fazer com sua nova liberdade, uma avó que quer morrer e não encontra quem a ajude, um menino convencido de que vai morrer em uma semana, e um professor que perdeu o interesse por tudo. Cada um deles vive sua própria crise, e a obra não tenta unir tudo de forma certinha. Pelo contrário, há momentos em que parece que estamos vendo histórias diferentes que se cruzam por acidente.

O humor é seco, às vezes cruel, e o roteiro não tem pudor em misturar enterros com cenas de sexo, despedidas com piadas, e diagnósticos com confissões constrangedoras. Há uma cena em que a avó implora por ajuda para morrer enquanto o neto corre atrás de uma lista de desejos antes de sua suposta morte. O contraste entre esses acontecimentos cria situações que beiram o ridículo, mas que funcionam justamente por não tentarem ser sérias demais.

O elenco é afiado. Hadewych Minis interpreta duas personagens — Annika e Hannah — sem grandes diferenças visuais ou de comportamento, o que gera uma confusão curiosa. Isso não parece ser um erro, mas uma escolha que reforça a ideia de que os personagens estão presos em versões parecidas de si mesmos. Beppie Melissen, como a avó, rouba as cenas com uma mistura de amargura e sarcasmo que dá ritmo ao filme mesmo quando ele parece se perder.

A estrutura é solta. Há momentos em que o filme se aventura por caminhos fantasiosos, como uma realidade paralela, e isso pode desorientar. Mas Rookus não parece preocupado em manter tudo coeso. Ele prefere deixar que os personagens se revelem aos poucos, mesmo que isso signifique perder o foco de vez em quando. O resultado é um mosaico que não se encaixa perfeitamente, mas que tem charme.

“Idílico” não tenta ser profundo. Ele brinca com o medo da morte, com a confusão dos afetos, com a falta de sentido das decisões. E faz isso com uma leveza que não se confunde com superficialidade. É um filme que não quer ensinar nada, só mostrar como tudo pode ser estranho — e, às vezes, engraçado — quando se está prestes a partir.

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