Davi – Nasce Um Rei (por Peter P. Douglas)

Davi – Nasce Um Rei (David – A King Is Born, 2025), longa-metragem estadunidense bíblico, distribuído pela Heaven Content, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 15 de janeiro de 2026, com classificação indicativa 10 anos e 110 minutos de duração.

A trajetória de Davi é amplamente conhecida: de pastor humilde a rei de Israel, marcada por sua relação complexa com o predecessor, Saul. Embora algumas séries já tenham explorado essa história, muitas optaram por destacar seus aspectos mais sombrios e realistas — com batalhas sangrentas e insinuações de condutas impróprias. Essa animação, por outro lado, preserva um tom leve e apropriado para o público alvo (crianças).

Para começar, há muita pouca violência em cena. O filme não consegue evitar completamente a morte de Golias, é claro — omite a decapitação —, mas consegue sugerir os aspectos mais sombrios da história sem mostrá-los explicitamente. Exércitos se perseguem, mas não vemos o que acontece quando um exército alcança o outro. E quando alguém aponta uma arma para outra pessoa, a câmera corta antes de vermos como a arma é usada.

O filme também suaviza o tom de outras maneiras, mais inesperadas. Depois de salvar suas ovelhas do leão, derrubando a fera de um penhasco, Davi salva o próprio leão, que está preso contra uma rocha. E quando o Davi adulto confronta os amalequitas que capturaram sua família… bem, sem spoilers, mas basta dizer que ele age com não violência de uma forma que espelha diretamente sua rejeição à armadura de Saul antes de lutar contra Golias.

A produção evita qualquer referência à vida amorosa de Davi. O rei Saul não surge oferecendo filhas como recompensa pela derrota de Golias, e os vínculos femininos mais próximos do protagonista são com sua irmã mais nova, Zeruia, e sobretudo com sua mãe, Nitzevet. É especialmente significativo ver o papel central que Nitzevet assume na trama, já que diversas produções a eliminaram antes mesmo do início da narrativa, em desacordo com o relato bíblico.

Além disso, o filme reforça o caráter heroico de Davi. Enquanto o Davi bíblico e seus homens se escondem de Saul por meio de uma frágil aliança com os filisteus — marcada por enganos e assassinatos —, o Davi da animação traça um plano para infiltrar-se entre os filisteus com o objetivo de salvar o exército israelita, até que os acontecimentos o forçam a seguir outro rumo.

De forma surpreendente, muitas dessas reviravoltas funcionam bem. O filme sustenta sua lógica dramática própria e impressiona pela engenhosidade com que reorganiza elementos da narrativa bíblica, ainda que não alcance a mesma complexidade moral do texto original.

Durante boa parte da trama, o jovem Davi permanece quase inativo e pouco se aventura por sua cidade natal, Belém — à exceção de um número musical muito bem executado. Em contrapartida, muitos eventos atravessam todo o território de Israel e além, revelando sequências grandiosas: desde exércitos reunidos para a batalha no Vale de Elá até multidões que cantam e celebram nas ruas de Gibeá.

O impacto do filme não vem apenas por contar uma história épica, mas também da delicadeza com que retrata momentos íntimos. Um exemplo é quando Samuel unge Davi diante de sua família: o profeta entoa uma bênção em hebraico, erguendo o chifre de óleo sobre a cabeça do jovem. O ambiente se silencia, enquanto folhas dançam ao vento, uma chama tremula na lamparina e pássaros pousam nas vigas da casa de Jessé, atentos ao que se desenrola.

Para os apreciadores da Bíblia, há detalhes curiosos e pouco conhecidos inseridos no roteiro. Um dos homens de Davi, chamado Elanã, interpreta Golias em uma peça comemorativa encenada pelo grupo. A escolha não é aleatória: o Elanã bíblico possui sua própria história ligada ao irmão de Golias (2 Samuel 21:19 e 1 Crônicas 20:5).

“Davi – Nasce Um Rei” tem muito a ser apreciado: dos visuais deslumbrantes à trilha musical envolvente, passando pelas mensagens claras de fé e coragem. Embora seja essencialmente uma obra voltada ao público infantil, eleva o padrão das animações religiosas, mantendo relevância temática e oferecendo inspiração artística para espectadores de todas as idades.

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