Crítica | Que Tal o Impossível? Cisne Negro Cia de Dança (por André Sanchez)

André Sanchez

Diferente do Balé clássico ou das vertentes mais modernas, em sua busca por romper padrões tradicionais e regras de movimento, a dança contemporânea foca em individualidade, liberdade, desconstrução dos conceitos e na experimentação de novas possibilidades, ao mesmo tempo que testa o espectador ao transportá-lo a um mundo novo, original e intimista, que jamais poderia ser visto de outra forma, que não naquele tempo, naquele lugar, e realizado por aquelas pessoas.

Com direção artística de Danny Bittencourt, diretora, professora e ex bailarina da Cisne Negro Cia de Dança, a apresentação “Que tal o Impossível?se utiliza de dança contemporânea e do balé clássico para homenagear um dos artistas nacionais mais autênticos que já existiram: Itamar Assumpção. Cantor, poeta, visionário e um dos líderes da vanguarda paulistana, um movimento permitiu que artistas produzissem e lançassem seus próprios discos e composições, sem o controle excessivo das gravadoras.

O espetáculo realizado no Teatro Sérgio Cardoso, no bairro do Bixiga (São Paulo), se divide em três partes bem definidas. A primeira apelidada de Lampejos: Uma Degustação Visual, tem coreografia idealizada por Andressa Miyazatto, música criada por Jean-Jacques Lemetre, e inspiração na dança Butoh, uma dança japonesa vanguardista e apelidada de Dança das Trevas.

O Butoh transmite por meio da dança o que se tem de mais humano dentro de cada um, assim, ao longo da apresentação, presenciamos movimentos rígidos marcados por um trilha composta por movimentos de percussão que passa uma aura tribal e forte, como um chamado para a guerra.

A apresentação de 40 minutos é marcada pela iminência constante que irá acontecer algo grandioso, ocasionando uma tensão na audiência que é satisfeita por meio da dança dos bailarinos e movimentos do corpo que subvertem as movimentações mais tradicionais, e permitem uma maior intimidade e liberdade para seus dançarinos.

No intervalo, Maurício Badé e Rubi Assumpção interpretam ao vivo músicas de Itamar Assumpção como “Que Tal o Impossível?”, “Oferenda” e “Fim de Festa”. Aquecendo os motores do público no processo de transição para uma outra forma de dança vanguardista, apresentada no terceiro ato do espetáculo juntamente com um belo rio de prata.

Em suas composições, Itamar Assumpção misturava diferentes estilos e vertentes musicais, como o samba, o rock e o funk, em uma composição que explorava ritmo, música e poesia de forma única e jamais vista anteriormente, assim, reflito que não havia outro modo de homenageá-lo em uma apresentação musical, se não no estilo de “Que tal o Impossível?“.

Coreografado por Jorge Garcia, “Que tal o Impossível?” é uma experiência visual que mistura música, iluminação, vestidos brilhantes, e um rio de papéis prateados que traziam uma sensação muito gostosa, segundo o bailarino Willian Gásparo, refletindo com muita graça a iluminação orquestrada por Rossana Boccia, tendo reflexos e maravilhas para o espectador transportado a um cenário onírico, que almeja celebrar a cidade de São Paulo em todo seu esplendor, seja cultural, arquitetônico ou poético.

Falecido em 2003 por conta de complicações com câncer no intestino que lutava fazia 4 anos, Itamar Assumpção ganhou destaque por conta de regravações de suas músicas realizadas por grandes nomes do cenário musical brasileiro como Ney Matogrosso e Rita Lee, que também foram vanguardistas em seus próprios campos, subvertendo os limites que lhe foram impostos seja pela sociedade ou por si mesmos.

Antes da estreia oficial, o espetáculo foi apresentado em uma pré-estreia itinerante, que percorreu cinco municípios do estado de São Paulo: Jundiaí, Sorocaba, Americana, São José dos Campos e Santos.

Misturando balé tradicional, dança contemporânea, e até traços do yoga em uma apresentação marcada pelo vanguardismo e subversão de normas, “Que tal o Impossível?” tem inicialmente o intuito de relembrar e homenagear um artista nacional responsável por moldar paradigmas futuros, porém, por meio da dança, consegue transmitir muito mais do que somente este retrato, demonstrando a eternidade de Itamar Assumpção.

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