Com Unhas e Dentes (por Peter P. Douglas)

Nos últimos anos, fomos presenteados com tantos filmes de zumbis que o gênero praticamente deu a volta completa e voltou às origens — agora com direito a críticas sociais, metáforas políticas e, claro, mortos-vivos correndo atrás de gente que nunca treinou um dia na vida.

O diretor Kulp Kaljareuk abraça essa tradição com entusiasmo em “Com Unhas e Dentes” (Ziam, 2025), um híbrido de zumbis com Muay Thai que mistura apocalipse global, escassez de comida e regimes autoritários. Porque, aparentemente, se é para o mundo acabar, que acabe com estilo tailandês.

Disponível na Netflix, o longa-metragem nos leva a uma Tailândia distópica onde Singh (Prin Suparat), um ex-boxeador, tenta construir uma vida decente ao lado da namorada Rin (Nuttanicha Dungwattanawanich), uma enfermeira que claramente não ganha o suficiente para lidar com o que está por vir. Durante o turno dela, um paciente aparece infectado com um vírus misterioso — porque é claro que é sempre misterioso, mesmo ao sabermos que advém de peixes contaminados — e logo o hospital inteiro vira um buffet de carne humana. Quando Singh descobre que Rin está presa lá dentro, ele corre para salvá-la, — e quem o acompanha é Buddy (Wanvayla Boonnithipaisit), uma criança filha da melhor amiga de Rin —, e usa suas habilidades de luta para enfrentar os infectados antes que os militares explodam tudo de vez.

E, para ser justo, o filme entrega exatamente o que promete: ação, caos e zumbis suficientes para lotar um estádio. O que se sobressai no vírus mortal (e que eu nunca tinha visto) é a mutação dos zumbis em contato com a água. O roteiro — assinado por uma equipe tão grande que parece até trabalho escolar em grupo — mistura os clichês clássicos do gênero com um toque regional. O romance entre Singh e Rin é básico, mas funciona, e a jornada dele pelo hospital é o que move a história.

Agora o que realmente diferencia o filme é a pancadaria. Singh distribui golpes como se estivesse em um campeonato mundial, e cada cena de luta é coreografada com carinho, sangue e uma quantidade generosa de ossos estalando. Os zumbis são rápidos o suficiente para assustar, mas não tão rápidos a ponto de virar videogame.

Claro, nem tudo são flores (ou vísceras). Há uma subtrama envolvendo militares tentando recuperar o Paciente Zero que parece ter sido colocada ali só para preencher espaço. Personagens descartáveis, dramas desnecessários e zero impacto real na história.

E o final… ah, o final. Ele abraça o absurdo com tanta força que quase desloca o ombro. Depois de um filme inteiro com um tom mais cru, a conclusão parece ter vindo de outro universo — talvez um onde a lógica tirou férias.

Mesmo assim, “Com Unhas e Dentes” é uma mistura divertida de artes marciais e carnificina zumbi. Ele combina o familiar com o inesperado, entrega ação de qualidade e ainda adiciona um toque cultural que o diferencia do resto da horda. Fãs de terror, fãs de luta ou curiosos que sempre quiseram ver um zumbi levando um chute giratório vão encontrar algo para apreciar aqui.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *