Com Causa (por Peter P. Douglas)

Com Causa (2024), longa-metragem documental brasileiro, exibido durante a 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (2025), com classificação indicativa 10 anos e 84 minutos de duração.

A obra reúne vozes de diferentes partes do mundo para falar de luta, mas sem cair na tentação de transformar seus personagens em mártires ou heróis. Dirigido por Belisario Franca e Pedro Nóbrega, o documentário parte de uma premissa simples: reunir pessoas que decidiram agir diante de injustiças.

O que surpreende é a variedade de trajetórias. Estão ali Ailton Krenak, Paul Watson, Carmen Silva, Muzoon Almellehan, Andrew Solomon, entre outros. Cada um com sua história, seu contexto, seu modo de enfrentar o que considera inaceitável.

O filme não tenta criar uma linha única entre eles. Ao contrário, o que se vê é uma costura de depoimentos que se cruzam mais pela disposição em agir do que por qualquer semelhança de causa.

Carmen fala da luta por moradia no centro de São Paulo com a mesma firmeza com que Muzoon fala sobre educação para meninas refugiadas. Paul Watson, com seu histórico de confrontos no mar, aparece ao lado de Krenak, que fala com calma sobre o tempo e a terra. Essa justaposição não é gratuita — ela mostra que o ativismo não tem uma forma só.

A montagem é limpa, sem firulas. As entrevistas são intercaladas com imagens de arquivo e registros do cotidiano dos personagens. Não há narração. O filme deixa que cada um fale por si. Isso dá espaço para que as falas respirem, mesmo quando tratam de temas pesados. Há momentos em que o silêncio entre uma fala e outra diz mais do que qualquer trilha sonora.

O documentário também evita o tom didático. Não há gráficos, dados, nem especialistas explicando contextos. Isso pode frustrar quem espera um panorama mais analítico, mas também permite que o foco fique nas pessoas. O que importa aqui não é tanto o que elas enfrentam, mas como decidiram enfrentar.

No fim, “Com Causa” funciona como um convite. Não para seguir os passos de ninguém, mas para pensar no que significa agir. E, talvez, para lembrar que nem toda ação precisa ser grandiosa para ter valor.

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