Cloud – Nuvem de Vingança (por Peter P. Douglas)

Cloud – Nuvem de Vingança (Kuraudo AKA Cloud, 2024), longa-metragem japonês de suspense dramático, distribuído pela O2 Play, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 17 de julho de 2025, com classificação indicativa 16 anos e 124 minutos de duração.

A compra online tornou-se uma comodidade banal ao longo dos anos, mas é nas mãos do diretor Kurosawa Kiyoshi que esse universo revela seus aspectos mais obscuros. Em “Cloud – Nuvem de Vingança”, o cineasta examina a energia negativa que permeia o mercado de revendas digitais. A trajetória de um comerciante inescrupuloso desperta a fúria de clientes e concorrentes, transformando um estudo de personagem rígido em uma narrativa vingativa, carregada de inquietações éticas e reflexões sobre o capitalismo contemporâneo.

Kurosawa evita qualquer zona de conforto ao nos apresentar Yoshii Ryōsuke (interpretado por Suda Masaki), vendedor que convence, logo no início, um casal idoso a negociar equipamentos médicos com desconto, para revendê-los posteriormente, bem mais caro, pela internet. Preso em um emprego insatisfatório na fábrica, Ryōsuke é incentivado por um amigo (Kubota Masataka) a buscar ambições maiores. O filme dedica grande parte de sua primeira metade à rotina obsessiva de aquisição e comercialização de produtos, representada por ícones em seu computador que se transformam a cada lance bem-sucedido. Eventualmente, o protagonista se muda para um subúrbio industrial, onde vive com a namorada Akiko (Furukawa Kotone), cada vez mais apática e desconectada.

Com a habitual habilidade para sugerir tensão latente, Kurosawa insere inquietação nos espaços domésticos e nas relações mais triviais. A moradia de Ryōsuke parece inerte, e mesmo com a chegada do assistente Sano (Okudaira Daiken), que acrescenta vigor e dinamismo, o ambiente permanece carregado. Sano descobre uma crescente revolta virtual contra o comerciante — conhecido online pelo pseudônimo “Ratel” — por parte de clientes prejudicados. A demissão do assistente não impede que os conflitos ganhem intensidade, servindo como ponto de virada, dando origem a cenas perturbadoras de perseguição e invasão domiciliar.

Kurosawa frequentemente explora personagens à mercê de forças estranhas ou sistemas invisíveis. Neste filme, o foco recai sobre o contágio social, essa força insidiosa que transforma cidadãos comuns em vigilantes vingativos. Entre os agressores, encontramos figuras familiares, como o antigo gerente da fábrica.

Não há glorificação da vingança: o ataque é retratado como descontrole e fúria coletiva, remanescente do clima dos filmes da franquia “Uma Noite de Crime”. Um dos invasores, que já participou de ataques semelhantes, orgulha-se da impunidade: “Fazemos o que queremos”. Ao lado de Ryōsuke, porém, surge um aliado inesperado — o jovem Sano, possivelmente um ex-yakuza, que retorna guiado por um código pessoal de justiça. Essa nova figura amplifica o nível de violência, agora executada com precisão cirúrgica. Kurosawa, fiel à sua inclinação pelo absurdo controlado, atribui inclusive a um dos atacantes um passado delirante, elevando o tom caótico das ações. A imprevisibilidade reina, com agressores despreparados, movidos mais pelo medo do que pela convicção.

Mesmo em meio a uma estrutura de gênero que flerta com o suspense e a ação, Kurosawa mantém seu olhar filosófico. A internet é apresentada como catalisadora da radicalização, capaz de conectar os piores impulsos humanos a manifestações concretas. Além disso, o diretor aponta as fissuras da comercialização desenfreada — o verdadeiro terror não reside em espectros, mas nos mecanismos desumanizantes do consumo. Akiko parece esvaziada por esses sistemas; Ryōsuke, por sua vez, está aprisionado pelo fascínio mercadológico, disposto a arriscar a própria vida em nome de uma venda.

Com domínio de tom e ritmo implacável, Kurosawa evita simplificações. Mesmo quando flerta com o thriller, recusa a catarse do gênero. No desfecho, um momento metafísico com ecos faustianos cristaliza sua crítica: diante de perdas humanas e venalidade, não resta dúvida quanto à posição do cineasta. Ainda assim, sua fidelidade aos enigmas da condição humana impede que se rotule o filme como meramente anticapitalista. A sugestão mais inquietante de “Cloud – Nuvem de Vingança” é que o mal-estar profundo das economias digitais não vem de fora — ele nasce dentro da própria casa.

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