Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (por Peter P. Douglas)

Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1995), longa-metragem nacional de comédia dramática, distribuído pela Copacabana Filmes, reestreia em 4K, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 14 de agosto de 2025, com classificação indicativa 14 anos e 100 minutos de duração.

Assistir ao relançamento de “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil” em 4K é como revisitar uma lembrança que continua viva, só que agora com mais nitidez — não só visual, mas também histórica e política. Dirigido por Carla Camurati e lançado em 1995, o longa é considerado o marco inaugural da chamada Retomada do Cinema Brasileiro, período em que a produção nacional ressurgiu após anos de estagnação. Essa nova versão chega com o peso de três décadas de transformações culturais, mas também com a mesma irreverência que o tornou tão impactante na época.

A trama gira em torno da infanta espanhola Carlota Joaquina de Bourbon, enviada a Portugal aos dez anos para se casar com o príncipe D. João. O filme acompanha sua trajetória até o Brasil, onde a corte portuguesa se refugia fugindo das tropas de Napoleão. Mas o que poderia ser um drama histórico vira uma comédia ácida, que mostra Carlota como uma mulher ambiciosa, sensual, debochada e completamente fora dos padrões da realeza. A relação dela com D. João é retratada como um casamento infeliz, cheio de traições e desavenças, enquanto o Brasil colonial vira palco de absurdos e conveniências políticas.

O que sempre chamou atenção no longa é o tom farsesco, quase teatral, com que trata episódios cruciais da história do Brasil. O elenco é um show à parte. Marieta Severo interpreta Carlota Joaquina; Marco Nanini é Dom João VI; Ludmila Dayer aparece como Carlota na infância; Marcos Palmeira vive Dom Pedro I; Beth Goulart é a princesa Maria Teresa; Vera Holtz encarna Maria Luísa de Parma; Ney Latorraca o artista Jean-Baptiste Debret, e Antônio Abujamra rouba cenas como o conde de Mata-Porcos.

A estética do filme, agora remasterizada, ganha ainda mais força. Os figurinos, os cenários e os enquadramentos sempre tiveram uma pegada quase caricatural (lembrando quadros de Salvador Dalí), e ver tudo isso em 4K é como colocar uma lente de aumento sobre os absurdos da corte portuguesa e, por extensão, da própria formação do Brasil.

O roteiro, escrito por Camurati e Melanie Dimantas, não se preocupa em ser fiel aos fatos — e isso é parte do charme. A história é contada a partir da imaginação de uma menina inglesa, o que dá liberdade para brincar com os exageros e as licenças poéticas. Essa escolha narrativa permite que o filme se afaste do didatismo e abrace a crítica com leveza, sem perder profundidade.

Em seu lançamento original, mesmo com orçamento modesto, “Carlota Joaquina, Princesa do Brasil” teve mais de um milhão de espectadores. Trinta anos depois, essa nova versão não é só uma restauração técnica. É uma reafirmação da relevância do filme, uma chance de novas gerações descobrirem que a história do Brasil pode — e talvez deva — ser contada com humor ácido, com coragem estética e com a consciência de que rir também é uma forma de resistência.

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