Cama de Gato, 2022 (por Peter P. Douglas)

“Cama de Gato” (2002) chegou aos cinemas no circuito nacional, depois de dois anos rodando festivais como quem roda bolsinha: sem dinheiro, sem glamour e sem Globo Filmes segurando a mão. Trata-se do primeiro longa de Alexandre Stockler, um sujeito importado do teatro paulistano que decidiu que, já que não tinha orçamento, pelo menos teria coragem. E olha… coragem não faltou.

O filme é o bebê do manifesto TRAUMA — Tentativa de Realizar Algo Urgente e Minimamente Audacioso — que, basicamente, diz: “não temos dinheiro, mas temos raiva e vontade”. É quase um Dogma 95 brasileiro, só que com mais gambiarra e menos Lars von Trier. O orçamento? Treze mil reais. Isso mesmo: o preço de um iPhone Pro. Todo mundo trabalhou a preço de custo, e metade do elenco aparece nos créditos como “PTO — pau pra toda obra”, o que é provavelmente a descrição mais honesta já colocada em letreiros nacionais.

A fama do filme vem do conteúdo polêmico: sexo cru, violência crua, juventude crua. Tudo cru. É o tipo de filme que faz crítico bater palma e público bater em retirada. Sem marketing, sem mídia, sem esperança de ficar muito tempo em cartaz — praticamente um animal em extinção.

A trama gira em torno de três amigos da elite paulistana, recém-chegados à faculdade, inteligentes, privilegiados e com uma bússola moral contestável. Vivem numa redoma perfumada pelos pais, onde nunca faltou nada — exceto limites, empatia e noção. Stockler faz um raio-X dessa juventude que acha que o mundo é um playground e que consequências são coisas que acontecem com outras pessoas.

Eles não são vilões de novela que humilham pessoas por esporte — embora façam isso também, mas só porque… sei lá, sexta-feira. São garotos brilhantes, articulados. O problema é que, quando você mistura inteligência com ausência total de limites, o resultado costuma ser… catastrófico.

E é aí que o filme desce a ladeira. O estupro coletivo de uma garota — filmado com detalhes suficientes para deixar metade da plateia desconfortável e a outra metade arrependida de ter comido pipoca — é o ponto de virada. Em minutos, os três têm dois cadáveres nas mãos e absolutamente nenhuma ideia do que fazer. A tentativa de encobrir tudo vira uma sequência de humor negro tão absurdo que você ri e depois se odeia por ter rido.

Tecnicamente, “Cama de Gato” é tão ortodoxo quanto um culto satânico. Filmado em digital barato, a imagem granula, o som falha, a luz some — mas tudo isso vira estética, porque Stockler usa a câmera como extensão dos personagens, oscilando entre closes sufocantes e planos abertos que parecem dizer: “olha essa merda acontecendo”.

O elenco segura bem a barra. Caio Blat, fugindo do padrão global, entrega um personagem que mistura arrogância adolescente com eloquência teatral — como se Nietzsche tivesse sido criado no Morumbi. Os outros atores acompanham bem, encarnando essa juventude brilhante e burra ao mesmo tempo.

O filme ainda intercala entrevistas reais com adolescentes de várias classes sociais, comentando as situações do roteiro. E, sinceramente, esses depoimentos são mais assustadores que o próprio enredo. A edição destaca o raciocínio raso, a falta de empatia e a normalização da violência — e você percebe que Stockler não inventou nada. Ele só filmou o que já existe.

O título “Cama de Gato” vem daquela brincadeira com barbante que vira um emaranhado infinito. Perfeito para representar essa juventude que transforma uma confusão em outra, sem nunca resolver nada — porque sempre tem dinheiro, sempre tem pai, sempre tem alguém para limpar a sujeira.

Na falta de filmes nacionais que realmente incomodam, esse cumpre seu papel. Ele irrita e deixa um gosto amargo na boca. E, convenhamos, num país onde a elite acha que a lei é opcional, talvez seja exatamente o filme que merecemos.

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