Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (por Peter P. Douglas)

Há filmes que deixam você feliz, outros que deixam você pensativo, e depois existe “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004), que deixa você emocionalmente destruído, mas de um jeito tão bonito que você até agradece. É aquele tipo de obra que você evita rever não porque é ruim, mas porque você sabe que vai terminar abraçando o travesseiro e encarando o teto como se tivesse acabado de lembrar que a vida é um contrato sem cláusula de devolução.

Charlie Kaufman escreveu o roteiro mais perfeito de sua carreira e, Michel Gondry dirigiu tudo com extrema competência e câmera na mão, como se estivesse filmando um documentário sobre pessoas tentando sobreviver ao próprio cérebro. Os efeitos especiais parecem feitos com truques de teatro — e funcionam melhor do que metade dos blockbusters milionários por aí.

A iluminação com lanternas tremendo no escuro dá ao filme um ar de “corra, ou o futuro vai te atropelar”. Os personagens Joel Barish e Clementine Kruczynski poderiam facilmente estar fugindo de um exterminador do futuro, mas aqui o robô assassino é a própria memória — o que é muito mais assustador.

Jim Carrey aparece em modo “sou um ator sério, juro”, e surpreendentemente funciona. Ele interpreta Joel, um homem tão comum que chega a ser deprimente. Nada de caretas, nada de gritos, nada de falar com o traseiro — só um sujeito triste tentando não desmoronar. É tão convincente que você até esquece que ele já interpretou um detetive que falava com animais.

Kate Winslet, que se tornou uma estrela internacional com “Almas Gêmeas” (Heavenly Creatures, 1994) de Peter Jackson e uma superstar com “Titanic” (1997) de James Cameron, entrega uma Clementine, que parece ter sérios problemas emocionais e deveria ter recebido diagnóstico e tratamento.

Gondry transforma tudo isso em um labirinto mental onde Joel corre como um rato tentando salvar lembranças antes que sejam deletadas por uma equipe de técnicos que parecem ter aprendido ética profissional no fundo de um bar.

A equipe de apagadores de memória — Tom Wilkinson, Kirsten Dunst, Mark Ruffalo e Elijah Wood — é um espetáculo à parte. Eles tratam o processo como se estivessem instalando internet, não mexendo no cérebro de alguém. E, claro, há corrupção, incompetência e uso indevido da tecnologia, porque se existe uma máquina capaz de destruir memórias, alguém vai usá-la para fins questionáveis. É praticamente garantido.

A estrutura do filme imita a própria memória humana: confusa, fragmentada, contraditória e completamente incapaz de seguir uma ordem lógica. O começo parece o fim, o fim parece o começo, e tudo no meio parece um ataque de pânico cuidadosamente editado. Joel é o rato preso no labirinto, tentando lembrar o que esqueceu e esquecer o que lembra.

No fim, “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” é um lembrete cruel de que nossas memórias são falhas, nossas relações são complicadas e nossos cérebros são péssimos em cooperar. Mas, de alguma forma, é lindo. Lindo de um jeito que dói. Lindo de um jeito que faz você pensar: “Talvez eu devesse apagar esse filme da minha mente para poder sofrer tudo de novo.” E isso é o que chamo de cinema!

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