
Se existisse um prêmio para “Melhor Ideia Que Claramente Surgiu Depois de Alguém Olhar Para o Próprio Cachorro e Pensar: e se…?”, “Bom Menino” (Good Boy, 2025), de Ben Leonberg, levaria o troféu com folga. O filme pega uma história de terror rural bem tradicional — casa assombrada, presença maligna, gente fazendo escolhas ruins — e tem a audácia genial de contá-la do ponto de vista do cachorro. Sim, o cachorro. É tão brilhante que chega a dar raiva de ninguém ter pensado nisso antes.
E olha, mesmo que o filme não tivesse mais nada, só essa perspectiva já valeria o ingresso. Mas ele tem mais — tem Indy, um Nova Scotia Duck Tolling Retriever tão adorável que você perdoa qualquer falha do roteiro só para continuar vendo aquele focinho fofo tentando salvar o dono do sobrenatural.
Há quem diga que o filme funcionaria melhor como curta. Pode até ser verdade. Mas, honestamente, 73 minutos de Indy talvez sejam poucos. Se dependesse de mim, teria três horas, intervalo e sessão de fotos com o cachorro no final.
A trama é simples e eficiente: Todd (Shane Jensen) se muda para a casa rural abandonada do avô, ignorando todos os sinais de que isso é uma péssima ideia. A irmã dele, Vera (Arielle Friedman), tenta avisar, mas Todd claramente é do tipo que só aprende quando o fantasma já está sentado no sofá pedindo café. A casa está assombrada, Todd está ficando doente, e a única criatura com neurônios suficientes para perceber o perigo é… Indy. Porque, claro, humanos são péssimos em notar o óbvio.
E Indy não é só fofo — ele é o protagonista. Leonberg levou quase três anos treinando o próprio cachorro para conseguir as cenas certas. Três anos. Isso é mais dedicação do que muito ator humano coloca em carreira inteira. E valeu a pena: Indy entrega emoção, curiosidade, medo, heroísmo e até aquele olhar de “meu Deus, meu dono é burro demais” com perfeição.
Mas o verdadeiro brilho do filme está no roteiro. Todos os clichês do terror estão lá: doença misteriosa, espírito ameaçador, casa carregada de memórias ruins. Só que, quando vistos pelos olhos de um cachorro, tudo ganha outra dimensão. Indy não sabe o que é fantasma. Não sabe o que é morte. Não sabe o que é “assombração rural nível 5”. Ele só vê coisas estranhas e reage como qualquer cão: confuso, assustado e pronto para proteger o humano que mal consegue cuidar de si mesmo.
Essa ingenuidade canina transforma o terror em algo muito mais visceral. O espectador entende o que está acontecendo. Indy não. E isso deixa tudo mais tenso, mais engraçado e, surpreendentemente, mais emocionante.
Leonberg, em sua estreia como diretor de longa, mostra domínio dos tropos do terror e ainda consegue entregar um filme com tema central forte: doença terminal e a proximidade da morte. Só que contado por um cachorro. É ousado, é estranho, é maravilhoso.
No fim, “Bom Menino” é um filme simples? Sim. Mas é uma estreia extremamente bem-sucedida. Tem criatividade, tem coragem, tem um cachorro ator melhor do que metade de Hollywood e tem um diretor que claramente sabe o que está fazendo.
















