
“Basta!” é um documentário dramático, dirigido por Marcelo de Paula e produzido pela Druida Filmes. Uma obra de denúncia e memória que se inscreve com força no panorama do cinema brasileiro contemporâneo. Ambientado em Cabo Frio, município carioca, que liderou os índices de violência contra a mulher na Baixada Litorânea entre 2022 e 2023, o filme não se limita a expor estatísticas: ele dá rosto, voz e corpo às vítimas, às sobreviventes e às instituições que lutam diariamente contra esse ciclo de agressão.
A estrutura narrativa combina depoimentos reais com momentos performáticos e registros documentais, criando uma harmonia que alterna entre o factual e o poético. A abertura, marcada por uma performance da atriz Luciana Fróes na deserta Praia da Reserva da Marinha, em Unamar, é emblemática: um corpo feminino em movimento, acompanhado por um texto conceitual gravado pela locutora Selma Boiron, evoca a solidão, a resistência e a urgência de se falar sobre o tema. Essa escolha estética já anuncia o tom do filme — direto, simbólico e emocionalmente contundente.
Ao longo de seus 97 minutos, o filme reúne depoimentos de figuras centrais na luta pelos direitos das mulheres, como Maria da Penha, sobrevivente de duas tentativas de feminicídio e inspiração para a lei que leva seu nome; Leila Linhares, jurista que participou da redação da mesma lei; e Luana Piovani, atriz e ativista que compartilha sua experiência pessoal de violência doméstica. Esses relatos são entrelaçados com falas de delegadas, oficiais da Patrulha Maria da Penha, representantes da OAB Mulher e de ONGs como a CEPIA e a Anistia Internacional Brasil. A diversidade de vozes reforça a dimensão sistêmica do problema e a necessidade de uma resposta articulada entre sociedade civil, poder público e cultura.
A direção de Marcelo de Paula é precisa ao evitar o sensacionalismo. A câmera observa com respeito, sem invadir, e a montagem de Carla Mendes permite que cada depoimento respire, criando espaço para a escuta e para o impacto. A trilha sonora, composta por Aakash Gandhi, adiciona uma camada emocional sem sobrecarregar a narrativa, equilibrando momentos de dor com instantes de esperança e empoderamento.
O filme também se destaca por sua abordagem territorial. Ao focar em Cabo Frio, revela como a violência contra a mulher não é um fenômeno abstrato, mas uma realidade concreta que atravessa bairros, instituições e famílias. A presença de entidades locais como a DEAM, a Patrulha Maria da Penha e o Centro Especializado de Atendimento à Mulher reforça o compromisso da obra com a transformação comunitária. A inclusão do Grupo Reflexivo de Homens, que trabalha com agressores, amplia o escopo da discussão e aponta para caminhos de reeducação e prevenção.
Mais do que um documentário informativo, “Basta” é um chamado à ação. Sua força reside na capacidade de transformar dados em histórias, estatísticas em rostos, e silêncio em discurso. É um filme que não apenas denuncia, mas também propõe, inspira e convoca. Em tempos de retrocessos e apagamentos, sua existência é um ato de resistência e um lembrete de que o cinema pode — e deve — ser instrumento de justiça social.









