
Barba Ensopada de Sangue (2025), longa-metragem nacional de drama, terror e suspense, distribuído pela O2 Play, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 02 de abril de 2026, com classificação indicativa 14 anos e 118 minutos de duração, baseado no livro homônimo escrito por Daniel Galera.
O filme “Barba Ensopada de Sangue” funciona adequadamente como adaptação, mas ainda apresenta alguns vícios comuns ao processo de transposição entre formatos, especialmente do escrito para o cinematográfico. Nesta crítica, o foco principal será apresentar algumas escolhas questionáveis feitas nessa adaptação, embora seja importante destacar que o longa-metragem prende a atenção ao entregar tensão, romance e drama de maneira equilibrada, podendo ser assistido sem receios.
O filme, dividido em três atos (O Pai; O Filho; O Avô) começa como todo bom terror genérico: um forasteiro chega numa cidadezinha litorânea onde todo mundo olha para ele como se fosse um vírus ambulante. A casa onde ele vai morar é tão escura que parece ter sido construída dentro de um eclipse permanente, com espelhos sujos que refletem mais trauma do que luz. Barulhos estranhos? Claro. Gente hostil? Em abundância. A vibe é “viajante na cabana da floresta”, só que agora com maresia e catarinenses armados de rancor.
Mas o monstro da vez não é sobrenatural — é só gente mesmo, o que costuma ser bem pior. O protagonista Gabriel (Gabriel Leone) descobre que seu avô dele era considerado praticamente o demônio local, então os moradores decidem que odiar o neto é um hobby comunitário. Um barbeiro chega a avisar: “Tu vai morrer aqui”, com a mesma naturalidade de quem oferece um cafezinho. Para piorar, o rapaz conquista Jasmin (Thainá Duarte), uma garota grávida, o que desperta nos homens da cidade aquele instinto primitivo de “território meu”.
O problema é que o protagonista é um mistério ambulante. Tem um passado nebuloso com o pai, avô e irmão, mas nada é explicado, apenas levemente sugerido. Ele simplesmente chega, ocupa a casa do avô morto e fica lá, como se estivesse esperando a morte bater na porta e pedir licença.
O rapaz parece ter o mesmo instinto de autopreservação de uma baleia encalhada — metáfora que o filme faz questão de esfregar na nossa cara. Ele é ameaçado, humilhado, cercado por capangas, mas insiste em ficar. Vai buscar a cadela sequestrada como se fosse pegar pão na padaria. Promete voltar para a namorada, mas para no bar para conversar com um estranho. É quase como se estivesse competindo pelo prêmio de “pior timing do cinema brasileiro”.
A narrativa é cheia de escolhas curiosas. Todo mundo na cidade sente uma necessidade urgente de explicar a vida inteira para o forasteiro. Cada cena é um bate-papo expositivo: Jasmin, o pescador, o velho do bar, a justiceira, a dona das terras… todos se revezam para despejar informações enquanto o protagonista só escuta e acena, como um terapeuta mal pago.
Gabriel encontra um esqueleto na caixa d’água, restos de cadáver na estrada, pichações, invasões — e segue firme, como se tudo fosse parte de um pacote turístico temático “terror psicológico premium”. Ele poderia fugir com a garota grávida e começar uma vida nova, mas prefere ficar ali, sofrendo, deprimido, com uma barba que às vezes parece colada com fita dupla-face.
E aí tem a doença dele — a tal incapacidade de lembrar rostos — que aparece tarde demais, não serve para nada e some sem deixar rastro. A baleia, símbolo central, nunca vira algo realmente mágico ou realista; fica ali, boiando na metáfora, tão perdida quanto o protagonista.
O diretor Aly Muritiba, tem em seu currículo fascinação pelo estudo de masculinidades quebradas. Prova disso é que seus personagens são sempre homens deslocados, raivosos, solitários, tentando sobreviver num mundo que já não tem espaço para seus arquétipos ultrapassados.
É claro que transformar um livro em filme exige sacrifícios — e não daqueles simbólicos, mas sim personagens secundários sendo jogados da ponte sem dó. Às vezes, para a história funcionar, alguém precisa desaparecer do roteiro como quem some de um grupo de WhatsApp. No caso desta adaptação, tentaram dar um espacinho para todo mundo, como se fosse festa de família em apartamento pequeno. A intenção até foi boa, mas… digamos que ficou exatamente como descrito nos parágrafos acima: algo que por muitas vezes tropeça nas próprias escolhas.
Em geral, “Barba Ensopada de Sangue” entrega uma boa trama, atuações sólidas (apesar de uma guerra de sotaques dissoantes), e escolhas duvidosas. Deixando claro que, todos os problemas emocionais de Gabriel serão resolvidos apenas quando o mesmo quebrar o ciclo de destruição que acometeu seu avó, seu pai e agora a ele próprio.
















