Asa Branca – A Voz da Arena (por Peter P. Douglas)

Asa Branca: A Voz da Arena (2025), longa-metragem nacional biográfico, distribuído pela Paris Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 18 de dezembro de 2025, com classificação indicativa 16 anos e 108 minutos de duração.

Dirigido por Guga Sander, aposta-se na clássica estrutura da jornada do herói para contar a história de uma figura real cuja trajetória é muito mais dura e complexa do que o filme permite enxergar. O longa segue o caminho tradicional das narrativas de superação: o protagonista que cai, se levanta, enfrenta obstáculos e alcança o auge — fórmula que o cinema norte‑americano consagrou e que o público reconhece de longe.

O problema é que, quando essa “cartilha” está tão acessível, as produções precisam de personalidade para se destacar. E é justamente aí que o filme tropeça. Embora conte a história de um dos maiores nomes do rodeio brasileiro — um locutor que revolucionou o espetáculo e a relação do público com a arena — a obra se acomoda em escolhas previsíveis e pouco ousadas.

A narrativa acompanha Asa Branca desde seus primeiros passos como peão, passando pelo acidente que mudou sua vida, sua queda, a reinvenção como locutor, o estrelato e uma nova decadência, até chegar a um desfecho otimista. O recorte principal vai do acidente ao reconhecimento nacional, incluindo sua relação amorosa com Sandra (Lara Tremouroux), tratada como o grande porto seguro do protagonista.

Ao longo do caminho, surgem figuras como Jibóia e Wandão, amigos e mentores que reforçam a trajetória de superação. Também aparecem os conflitos com vícios, ego e tentações — elementos comuns em cinebiografias e que, aqui, são resolvidos de forma rápida e conveniente, quase sem peso dramático.

O filme ainda recorre a modelos ultrapassados, como a mulher idealizada que existe apenas para inspirar o herói, e personagens secundários que orbitam Asa Branca sem função narrativa real. Tudo isso contribui para uma sensação de artificialidade, como se a vida do locutor tivesse sido suavizada para caber em um molde hollywoodiano.

O final reforça a impressão de fantasia. Mas repito, quem conhece a verdadeira história de Asa Branca sabe que sua trajetória foi muito mais complicada do que o filme sugere — e que a glória não veio de forma tão mágica.

Apesar da entrega de Felipe Simas no papel principal, “Asa Branca – A Voz da Arena” acaba sendo um filme correto, mas sem alma. Segue todas as regras para ser um “bom” longa, mas esquece de abraçar a brasilidade e a singularidade do personagem que retrata. O resultado é um espetáculo plástico, competente, porém facilmente esquecível — bem distante da força e da personalidade que tornaram Asa Branca eterno.

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