As Oito Vítimas (por Peter P. Douglas)

As Oito Vítimas (Kind Hearts and Coronets, 1949) é aquele tipo de filme britânico em preto e branco que já chega avisando: “prepare-se, porque aqui tem classe”. E, claro, tem o ator Alec Guinness fazendo o que só Alec Guinness faria — interpretando oito membros de uma família nobre tão arrogante e insuportável que até parece competição. Ele surge como general grosseiro, banqueiro carrancudo, aficionado por fotografia, almirante obstinado, aristocrata que respira superioridade, sufragista atrevida, padre que claramente não recusa um gole… e por aí vai. Cada personagem tão diferente que você até esquece que é o mesmo ator — ou finge esquecer, só para apreciar o espetáculo camaleônico que virou uma das atuações mais icônicas do cinema.

Baseada em um obscuro romance de 1907 sobre um judeu ambicioso que sobe na nobreza britânica à base de assassinatos — a adaptação do diretor e corroteirista Robert Hamer decide dar uma repaginada no anti-herói. Agora ele é um meio-italiano, filho de uma nobre dos D’Ascoyne (Audrey Fildes) que teve a audácia de se casar com um cantor de ópera. Para completar o pacote, Dennis Price interpreta tanto o pai cantor quanto o filho vingativo, porque aparentemente ninguém na produção achou que dois atores seriam necessários. O jovem, claro, jura destruir a família que não reconheceu o casamento da mãe — nem a existência dele — e parte para sua missão homicida com toda a elegância britânica que um enredo desses permite.

Criado desde a infância, acreditando que tinha um lugar reservado entre os ilustres D’Ascoynes, Louis Mazzilli descobre, ao chegar à vida adulta, que a realidade é bem menos glamourosa do que as histórias que ouviu no berço. Décimo na linha de sucessão ao título de Duque, ele vê sua mãe morrer sem sequer ter o direito de ser enterrada no jazigo da própria família. Educado, eloquente e, infelizmente, empregado como assistente de um comerciante de tecidos, Louis decide que já que o destino não vai ajudá-lo, ele mesmo vai dar um “empurrãozinho” na hierarquia social. Afinal, se a nobreza britânica não quer aceitá-lo de bom grado, ele está mais do que disposto a obrigá-la — um D’Ascoyne de cada vez.

Começando com um encontro “casual” com um dos canalhas mais insuportáveis do clã, Louis dá o pontapé inicial em sua jornada rumo ao topo da linhagem D’Ascoyne da forma mais diplomática possível: provocando um afogamento. A partir daí, ele segue ampliando seu repertório — envenena, atira, explode — como se estivesse testando diferentes métodos para um catálogo de homicídios de luxo. Cada vítima é um espetáculo à parte.

O toque mais inteligente do roteiro é uma reviravolta digna de grandes sucessos literários. Louis, nosso dedicado aspirante a duque e assassino ocasional, suspira desde a infância pela filha do médico amigo de sua mãe. Sibella, sua paixão eterna, é praticamente a personificação da verdadeira vilania do sistema de classes britânico: uma “plebeia” com ambições muito claras, determinada a se casar com um homem rico, porque, afinal, amor é bom… mas estabilidade financeira é melhor.

Sibella ganha um charme deliciosamente enjoativo e calculista na interpretação de Joan Greenwood. Ela é tão ambiciosa e inescrupulosa quanto Louis — só que, em vez de resolver seus problemas com uma sequência criativa de assassinatos, ela prefere a velha estratégia social britânica: casar bem. Se o primeiro marido “sem graça” não der o retorno esperado, sem problema algum. Talvez Louis, agora com perspectivas cada vez mais brilhantes, seja uma opção mais interessante. Afinal, para Sibella, o amor pode até ser bonito… mas a ascensão social é irresistível.

O título em inglês do filme vem do verso de um poema de Alfred Tennyson, escrito lá em 1842. A história se passa em 1902, então não se surpreenda se, mesmo com o diretor tendo limpado boa parte do tom antissemita do romance original, ainda escaparem aqui e ali uma ou duas piadinhas sobre insultos raciais. Afinal, é cinema britânico de época: sempre tem um detalhe que lembra que o passado… bem, era o passado.

Mas, apesar de toda a sua mensagem social cuidadosamente polida e de alguns momentos ocasionais de humor, o filme claramente se acha mais sofisticado do que realmente é. Fiquei genuinamente impressionado — não no bom sentido — com o ritmo arrastado e com a monotonia da narração em voz off do assassino, que parece ter decidido escrever suas memórias como quem redige um relatório de contabilidade. Tudo isso enquanto aguarda sua execução, já que o filme começa com Louis na prisão, pagando (ainda que indiretamente) pelos crimes que vemos em flashback. É quase poético… se poesia fosse sinônimo só de sonolência.

Até mesmo a famosa façanha de Alec Guinness tem seus tropeços, já que nenhum dos seus oito “tipos” chega exatamente ao nível de fazer alguém gargalhar. O diretor, por sua vez, fez alguns filmes bons ao longo da carreira, mas nenhum que entrasse para a história como obra-prima. E “As Oito Vítimas” segue essa tradição: é um bom filme, moderadamente ousado e levemente divertido, mas que não envelheceu lá muito bem.

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