
A comédia é uma coisa volátil — tipo nitroglicerina. O que faz você gargalhar pode fazer outra pessoa questionar a própria vida. O que chamamos de “normal” varia tanto que, se dependesse disso, nenhum comediante teria emprego. Mas é justamente quando alguém resolve cutucar esse tal “normal” que nasce uma comédia realmente boa. E, convenhamos, poucas sobrevivem ao teste do tempo. A maioria envelhece pior que leite no sol. Mas “Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu! 1” (Airplane!, 1980) é aquele milagre cinematográfico que, mais de 45 anos depois, ainda faz rir como se o mundo não estivesse em chamas.
Assisti ao filme pela primeira vez no ensino fundamental, quando meu repertório cultural era tão limitado que eu achava que “referência” era só o que o professor pedia no final do trabalho. Mesmo assim, o filme me marcou. Conforme fui crescendo e descobrindo que o mundo é um lugar horrível, as piadas ficaram ainda melhores.
Em 85 minutos, o filme entrega mais piadas do que muito comediante entrega a carreira inteira. A fórmula ZAZ (sobrenome dos diretores David Zucker, Jim Abrahams e Jerry Zucker) é simples: uma piada por minuto, sem dó, sem pausa, sem piedade. Você não ri — você se afoga. Nada escapa: filmes dos anos 70, estereótipos, religião, sexo, política, tudo vira alvo. É como se o filme tivesse sido escrito por alguém que decidiu que o mundo merece ser zoado em todas as direções ao mesmo tempo.
A trama? Ah, sim, existe uma… bem básica. Ted Striker (Robert Hays) é um ex-piloto com medo de voar e problemas de alcoolismo que segue Elaine (Julie Hagerty), sua ex-namorada em um voo e acaba tendo que assumir o controle da aeronave quando a tripulação passa mal devido a uma forte intoxicação alimentar. Mas isso é só desculpa para transformar cada segundo em uma paródia. Personagem, enredo, tema — tudo isso é secundário. A piada é o verdadeiro protagonista. E, surpreendentemente, funciona.
E aí chegamos ao verdadeiro herói: Leslie Nielsen. O homem, o mito, o patrono espiritual de todo humor idiota feito com seriedade absoluta. Ele aparece tarde no filme, mas quando chega, você percebe que estava assistindo a uma versão beta da comédia até então. Antes de “Apertem os Cintos…”, Nielsen era ator dramático. Depois disso, virou o rei do humor sem expressão facial. Ele entrega as falas mais absurdas com a compostura de um cirurgião cardíaco — e isso é exatamente o que as torna brilhantes.
Desde então, Hollywood tenta replicar a fórmula. E falha. Miseravelmente. Porque o segredo de “Apertem os Cintos…” é simples: você nunca sabe quando a piada vai te atingir. É como ser atacado por um pombo: inesperado, humilhante e, de alguma forma, engraçado.
Claro, algumas piadas envelheceram mal. Mas, considerando o estado geral de muitas comédias antigas, “Apertem os Cintos…” está praticamente conservado no formol. A execução continua impecável, mesmo quando o conteúdo faz você pensar “isso seria cancelado hoje em cinco minutos”.
No fim das contas, “Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu! 1” continua sendo uma obra-prima da comédia. Ele pega momentos sérios, históricos, dramáticos — e transforma tudo em piada. E funciona. Funciona tão bem que, décadas depois, ainda me faz rir até doer a barriga. E provavelmente vai continuar fazendo isso pelos próximos anos.
















