Amelia Toledo – Lembrar de Não Esquecer (por Peter P. Douglas)

Amelia Toledo – Lembrar de Não Esquecer (2025), longa-metragem documental brasileiro, exibido durante a 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (2025), com classificação indicativa Livre e 82 minutos de duração.

Documentário que se aproxima da artista Amelia Toledo com curiosidade e cuidado, sem tentar encaixá-la em rótulos ou movimentos. Dirigido por Hélio Goldsztejn, o filme parte de um interesse pessoal do diretor, que conheceu a obra de Amelia enquanto trabalhava no programa “Metrópolis”, da TV Cultura.

A partir daí, ele constrói um percurso que vai da infância da artista até seus últimos trabalhos, passando por momentos pouco conhecidos, como sua atuação como professora na recém-criada Universidade de Brasília, antes do golpe de 1964.

O documentário não tenta fazer um retrato definitivo. Ele prefere reunir vozes — amigos, familiares, artistas, críticos — que ajudam a compor uma figura múltipla. Amelia aparece como alguém que transitava entre materiais e escalas com a mesma liberdade com que transitava entre disciplinas. Trabalhou com pedras, metais, plásticos, tecidos, e também com o ensino, com a ciência, com o design.

Há uma passagem curiosa sobre seus pais: o pai, patologista, usava um microscópio para estudar células; a mãe, sem câmera, desenhava o que via. Essa mistura de precisão e imaginação parece ter moldado o olhar da filha.

O filme também se detém nas obras públicas que marcaram sua carreira, como as intervenções nas estações de metrô do Rio e de São Paulo. Mas não se limita a elas. Mostra os discos tácteis, as bolhas de plástico, os experimentos com juta e chapas metálicas. E, mais do que isso, mostra como Amelia se recusava a repetir fórmulas. Nunca se prendeu a um grupo, embora tenha convivido com nomes como Tomie Ohtake, Lygia Pape e Paulo Mendes da Rocha.

Há uma fluidez no modo como o documentário se move entre tempos e espaços. Ele não segue uma linha reta, mas também não se perde. Vai e volta, como se estivesse folheando um caderno de anotações. Em vez de tentar dar conta de tudo, prefere destacar momentos que revelam o modo como Amelia pensava e criava.

O título do filme, “Lembrar de Não Esquecer”, funciona quase como um aviso. Não se trata apenas de resgatar uma trajetória, mas de manter viva uma forma de pensar que não se acomoda.

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