Aisha Can’t Fly Away (por Peter P. Douglas)

Uma metamorfose está em curso em “Aisha Can’t Fly Away” (2025), longa de estreia do cineasta egípcio Morad Mostafa, que já acumulava diversos prêmios antes mesmo de sua estreia mundial em Cannes, na mostra “Un Certain Regard”.

Buliana Simon interpreta Aisha, uma imigrante sudanesa que vive no bairro de Ain Shams, no Cairo, sobrevivendo com dificuldade como cuidadora de idosos em domicílio. Ela mantém uma amizade com Abdoun (Emad Ghoniem), um chef local que a alimenta com generosidade, mas sua rotina é marcada por um terror constante. Um dos idosos sob seus cuidados, Sr. Khalil (Mamdouh Saleh), é exigente e exerce coerção sexual, enquanto Aisha também é forçada a colaborar com Zuka (o rapper egípcio Ziad Zaza), líder de uma gangue, ajudando em roubos ao coletar chaves das casas onde trabalha.

O filme gradualmente mergulha no terror corporal, com cenas que envolvem pesadelos. Aisha começa a apresentar uma erupção cutânea invasiva e perturbadora, enquanto é atormentada por visões de um avestruz — ave que não voa — simbolizando o título da obra (traduzido, literalmente, para o português como: Aisha Não Consegue Voar Para Longe).

A cada dia, ela enfrenta forças que a mantêm presa à sua nova realidade, encontrando algum consolo apenas na solidariedade com outros imigrantes e nas ligações para sua terra natal.

Mostafa adota um estilo visual sofisticado e típico de festivais, com a fotografia de Mostafa El Kashef, que utiliza câmeras portáteis para transmitir a instabilidade da vida de Aisha sem comprometer a imersão do público. No entanto, essa estética refinada acaba sendo prejudicada pela falta de profundidade narrativa, mesmo com uma duração que ultrapassa duas horas.

O roteiro, escrito por Mostafa e pelo produtor Sawsan Yusuf, com colaboração de Mohamed Abdelqader, evita cair na pornografia da miséria, mas em certo ponto, o terror pessoal retratado se torna excessivo e carente de profundidade.

Embora o diretor retrate com precisão os perigos enfrentados por migrantes, ele não consegue despertar empatia genuína, limitando-se a provocar angústia no espectador. Somos levados a sentir repulsa diante dos atos macabros que Aisha é obrigada a cometer, mas a ausência de elementos mais substanciais sobre sua história pessoal nos deixa apenas como observadores horrorizados. Ainda assim, Mostafa demonstra habilidade em criar uma experiência visualmente marcante — mesmo que isso venha à custa de escolhas criativas mais ousadas.

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