Agentes Muito Especiais (por Casal Doug Kelly)

Agentes Muito Especiais (2025), longa-metragem nacional de comédia policial, distribuído pela Downtown Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 08 de janeiro de 2026, com classificação indicativa 14 anos e 100 minutos de duração.

Comédia policial baseada em uma ideia original do falecido Paulo Gustavo, e cuja direção coube a Pedro Antonio (“Tô Ryca”, 2016; “Evidências do Amor”, 2023; entre outras obras nacionais). O projeto nasceu para celebrar os 20 anos de amizade entre o ator Marcus Majella, o roteitista Fil Braz, Paulo Gustavo e Ju Amaral, irmã mais nova deste.

Como já mencionado, “Agentes Muito Especiais” nasce de um desejo antigo de Paulo Gustavo, e isso já coloca o filme em uma posição curiosa: ele carrega a energia criativa de alguém que não está mais aqui para moldar cada detalhe. O resultado é uma comédia policial que abraça referências clássicas do gênero buddy cop (onde uma dupla com personalidades opostas é forçada a trabalhar junta), mas sem mergulhar totalmente no caos que essas histórias costumam abraçar. A ausência de Paulo Gustavo é sentida não apenas por quem conhece sua obra, mas pelo próprio filme, que parece buscar um equilíbrio entre homenagem e ousadia, sem encontrar um ponto realmente firme.

Na trama, Jeff e Johny – dois homens gays – sonham em fazer parte do centro de operações da polícia do Rio de Janeiro. Após vários treinamentos, o comandante (Chico Diaz) da unidade – a contragosto de sua subordinada (Bárbara Reis) – acaba designando a dupla para uma missão inusitada: infiltrar-se em uma penitenciária para investigar o temido “Bando da Onça” (Dudu Azevedo, Big Jaum, Saulo Arcoverde, Saulo Segreto). Fingindo serem detentos, eles se misturam aos criminosos e acabam ajudando com uma fuga, na tentativa de descobrirem o mistério que envolve a líder do grupo. Após uma série de confusões, o destino coloca bandidos e policiais lado a lado em um glamouroso evento de moda. É ali que Jeff e Johny terão a chance de mostrar que são capazes de se tornarem agentes da lei respeitados.

Marcus Majella e Pedroca Monteiro formam uma dupla que funciona bem quando o humor assume o centro da cena. Há momentos em que a química entre eles rende situações divertidas, especialmente quando o roteiro brinca com a quebra de padrões do gênero policial tradicional. Ainda assim, há trechos em que o filme parece hesitar, como se tivesse receio de abraçar totalmente o absurdo que o próprio enredo sugere. Isso cria uma alternância entre passagens mais soltas e outras que tentam soar mais sérias, mas sem alcançar impacto.

A participação de Dira Paes como a vilã Onça é um bom exemplo dessa oscilação. A personagem parece dividida entre dois estilos de antagonista, o que enfraquece sua força cômica. Em alguns momentos, ela flerta com o exagero caricatural e, em outros, tenta soar mais ameaçadora. Essa indefinição impede que a personagem se torne realmente grandiosa, mesmo com o talento evidente da atriz.

Tecnicamente, o filme segue um caminho seguro. A fotografia é limpa, a edição funciona melhor quando aposta em montagens paralelas e o roteiro encontra um jeito leve de inserir personagens gays em um gênero historicamente associado a uma masculinidade rígida. Esse ponto, inclusive, é um dos acertos do longa: a sexualidade dos protagonistas não é tratada como piada, mas como parte orgânica da história.

O problema é que o filme parece evitar o mergulho total no absurdo que o próprio conceito permitiria. Há momentos que pedem mais ousadia, especialmente quando a trama envolve a fuga do presídio, um romance totalmente inesperado e até um momento meio clipe musical ao som de Alicia Keys cantando “Girl on Fire”. Tudo isso aponta para um filme que poderia abraçar o caos de forma mais decidida, mas prefere seguir por um caminho mais tradicional.

No fim, “Agentes Muito Especiais” diverte e cumpre seu papel como homenagem a Paulo Gustavo, mas deixa a sensação de que havia espaço para algo mais ousado, mais solto, mais alinhado com o espírito anárquico. Ainda assim, é um filme que certamente encontrará seu público (principalmente quando for lançado em streaming) e que carrega, em sua essência, o carinho de quem quis manter viva a chama criativa de um artista que deixou saudade.

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Um comentário

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