A Vingança Será Minha | The Severed Arm, 1973 (por Peter P. Douglas)

“A Vingança Será Minha” (O Braço Cortado AKA O Braço Decepado) é um daqueles filmes que parecem saber exatamente como começar e como terminar, mas que se perdem completamente no caminho entre esses dois pontos. Um carteiro atravessa a ensolarada Califórnia até entregar um pacote estranho, comprido, que revela algo horrível — um braço humano decepado. A reação do destinatário e sua ida imediata ao consultório de um amigo médico criam uma atmosfera promissora, sustentada por uma construção de cena eficiente e típica de histórias de terror mais tradicionais.

O problema surge quando o filme recorre a um longo flashback para explicar a origem daquele membro amputado. Cinco homens presos em uma caverna após um desabamento, sem comida e sem esperança de resgate, decidem sortear quem sacrificará o próprio braço para que todos sobrevivam. A tensão do sorteio funciona, assim como o horror da amputação improvisada, mas a sequência se estende além do necessário e quebra o ritmo, dificultando o retorno ao presente.

A partir daí, a trama se transforma em uma história de vingança: o homem que perdeu o braço quer retribuir o “favor” cortando o braço de cada um dos antigos companheiros. O primeiro ataque — contra o médico — é bem executado, com direito a perseguição no escuro e um desfecho brutal. Já o segundo ataque perde força: a cena no chuveiro, além de previsível, não leva a lugar algum, já que a vítima sai ilesa.

O filme então mergulha em uma investigação conduzida pelos sobreviventes, incluindo um DJ de rádio que mais tarde também se torna alvo. É nesse ponto que a narrativa se arrasta. A aparição da filha do vingador, interpretada por Deborah Walley, poderia trazer novidades, mas acaba travando ainda mais o andamento. Walley está bem, mas sua presença leva o filme a um mar de especulações repetitivas sobre quando e como o próximo ataque acontecerá. Muitas cenas parecem filmadas sem direção clara, como se o filme estivesse esperando algo acontecer.

A virada só chega no último ato, quando Walley leva um dos sobreviventes até a casa de campo do pai. Lá, ela revela sua verdadeira intenção e o aprisiona. A partir desse momento, o filme abraça a loucura que vinha evitando. A troca de mensagens entre ela e o irmão — frases como “isso parece Natal” — traz um humor macabro inesperado. Os dois comemoram diante do pai em estado vegetativo, como se estivessem prestes a entregar um presente. A cela no porão, com porta de ferro, remete a clássicos do terror, e a dinâmica dos irmãos adiciona um toque grotesco que funciona melhor do que boa parte do que veio antes.

Em geral, “A Vingança Será Minha” é um filme de extremos: começa bem, termina melhor ainda, mas se perde em um miolo confuso, repleto de tramas paralelas que não acrescentam nada. E o mais frustrante é perceber que, mesmo lidando com elementos tão fortes — canibalismo, vingança física, correspondências ameaçadoras — o filme raramente consegue explorar todo o potencial desses temas. O resultado é uma obra que tinha tudo para ser inesquecível, mas que se contenta em ser apenas irregular, com lampejos de criatividade cercados por longos trechos de pura desorientação.

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