A Única Saída (por Peter P. Douglas)

A Única Saída (No Other Choice AKA Eojjeolsugaeobsda, 2025), longa-metragem sul-coreano de comédia e terror, , distribuído pela Mubi e Mares Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 22 de janeiro de 2026, com classificação indicativa 16 anos e 139 minutos de duração.

Uma coisa que aprendi com minhas análises sobre a carreira de cineastas é que eles raramente fazem filmes excelentes. Na maioria das vezes, fazem filmes bons. Haverá exceções, mas são extremamente raras. Então, quando um cineasta moderno lança um novo filme e ele não atinge o ápice de suas maiores realizações, não o culpo por isso. Fazer filmes é difícil. Fazer bons filmes é ainda mais difícil. Se este filme de Park Chan-wook não é tão bom quanto seu anterior, isso é motivo para lamentar? De forma alguma, porque esta adaptação de “The Ax”, de Donald Westlake, ainda sim é uma obra de qualidade.

Yoo Man-su (Lee Byung-hun) é um veterano, com 25 anos na indústria de papel, que ascendeu a um cargo de gerência intermediária até ser demitido pelos novos proprietários americanos. Após treze meses, gastando sua indenização e economias para manter o padrão de vida da família, ele ainda não conseguiu um emprego melhor do que o de vendedor, que precisa abandonar para ir a uma entrevista de emprego na qual é reprovado. Quando sua esposa, Lee Mi-ri (Son Ye-jin), começa a forçar a família a cortar gastos, Man-su fica cada vez mais desesperado. As aulas de tênis de Mi-ri, as aulas de violoncelo de Ri-one (So Yul Choi) e até mesmo a assinatura da Netflix de Si-one (Woo Seung-Kim) precisam ser sacrificadas. Além disso… eles podem ter que vender a casa que Man-su comprou, a mesma onde nasceu e cresceu. Diante disso, uma decisão é tomada: eliminar seus concorrentes para o cargo almejado, atualmente ocupado por Choi (Park Hee-soon). O que aconteceria se Man-su simplesmente matasse Choi? Bem, ele estará competindo com outros ótimos candidatos e perderá… de novo. Mas… e se ele descobrir quem são os melhores candidatos e eliminá-los primeiro?

Bem, essa é a situação conforme descrita nos trailers. E, sinceramente, eu esperava algo um pouco mais excêntrico e enérgico. Em vez disso, acompanhamos a jornada emocional de Man-su enquanto ele se prepara para cometer um assassinato. Uma coisa é pensar nisso, até mesmo planejar. Outra coisa é fazer! e justamente com homens que estão na mesma situação que ele. E é aqui que temos as desventuras tragicômicas de um pacato fabricante de papel tentando sujar as mãos no mundo do assassinato.

Man-su publicou um anúncio de emprego em uma empresa fictícia e filtrou todas as respostas para encontrar os melhores candidatos. Seu primeiro alvo é Goo Beom-mo (Lee Sung-min), desempregado há oito meses e infeliz no casamento por causa de sua reação ao desemprego. Man-su demonstra clara simpatia pelo homem, que tem uma saída: o sogro se ofereceu para ajudá-lo a abrir seu próprio café. Mas Goo insiste em permanecer no ramo de papel. Os protestos de Man-su, sugerindo que Goo deveria ter tentado algo diferente, são quase um apelo para que ele próprio siga em frente. Assim, a cena em que Man-su tenta encobrir o assassinato com música alta, enquanto os dois gritam um com o outro para se fazerem ouvir, é um breve choque entre o estranhamente engraçado e o profundamente triste, um equilíbrio delicado que, na minha opinião, o diretor domina com maestria.

Man-su precisa continuar eliminando pessoas. Mais duas acabam sob sua faca ineficaz: Ko Si-jo (Cha Seung-won), uma versão intelectual e quase espelhada do próprio Man-su, e depois Choi, que precisa ser morto para abrir espaço na vaga. E Man-su se torna cada vez mais frio. Sua compaixão desaparece, e isso também se manifesta quando Si-one é preso por participar do roubo da loja do pai de um amigo. O conselho de Man-su sobre como tirar Si-one dessa enrascada representa um afastamento grande da visão idealista de pai amoroso que se vê no início.

E então o final, com Man-su sozinho, em uma fábrica de papel automatizada, é tão sombrio. Ele conseguiu tudo o que queria, matou para chegar ao cargo e é o único com emprego. É tão pessimista em relação ao futuro da indústria coreana, mas também é a vitória pela qual Man-su lutava. Além disso, ele sai impune. Não há punição moral para ele e seus crimes, refletindo a indústria que o descartou e para a qual ele estava ansioso para retornar.

Suspeito que este filme vai me conquistar com o tempo. Que as partes aparentemente desconexas (como o crime de Si-one e a performance de violoncelo de Ri-one) se tornarão mais importantes para a história em novas assistidas, que a alternância entre o humor negro e o trágico aprofundará ainda mais o entendimento. Mas por enquanto, após apenas uma assistida, posso afirmar com segurança que este pode não ser seu melhor trabalho, mas está firmemente no mesmo nível do restante de sua filmografia, o que, considerando a força de suas direções, não é pouca coisa.

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