A Sapatona Galáctica (por Peter P. Douglas)

A Sapatona Galáctica (Lesbian Space Princess, 2025), longa-metragem de animação australiano, distribuído pela Synapse Distribution, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 12 de fevereiro de 2026, com classificação indicativa 16 anos e 87 minutos de duração, criado por Emma Hough Hobbs e Leela Varghese.

A princesa titular Saira (Shabana Azeez) é filha de duas rainhas lésbicas, Anne (Madeleine Sami) e Leanne (Jordan Raskopoulos), governantes adoradas do planeta Clitópolis (notoriamente difícil de encontrar), localizado em uma bolha LGBTQIAPN+ na galáxia. Tudo neste universo é extremamente gay, incluindo o mês (Gaypril), a mídia (Gayflix) e as decorações. Anualmente, um Baile Lésbico é realizado, e todos os membros da família real são capazes de invocar um “lábris real” — bem, todos, exceto Saira, que certa vez foi eleita o “membro mais entediante da realeza”.

No início da trama, Saira é dispensada por sua namorada, a bela caçadora de recompensas Kiki (Bernie Van Tiel), por ser muito insistente e se interessar por coisas como mágica com as mãos, ao invés de festas. No entanto, Kiki logo é sequestrada por “maliens brancos heterossexuais” malignos. Esses seres querem o lábris real de Saira — não pergunte — e mantêm Kiki como refém até conseguirem o que querem. Assim, Saira embarca, relutantemente, em uma aventura, pilotando uma nave espacial sexista do século XXI. Ironicamente, seu relacionamento mais saudável é provavelmente o que mantém com essa nave espacial pensante que faz comentários problemáticos. Seu nome? Nave Problemática (Richard Roxburgh).

Durante o percurso, conhecemos Willow (Gemma Chua-Tran), uma compositora gótica bissexual não-binária que se junta a Saira na esperança de obter inspiração para seu primeiro álbum solo, após se libertar das amarras do contrato com a gravadora GayPop.

Ao longo do filme, há metáforas hilariamente óbvias nesse mundo onde as coisas são um pouco diferentes do nosso. A animação é colorida, divertida e cheia de pequenas referências que definitivamente a fazem não ser direcionada para crianças. O filme satiriza, entre outros, a masculinidade tóxica, relacionamentos tóxicos e criação de filhos tóxica.

O longa também apresenta algumas músicas muito fofas. Não é exatamente um musical, mas tem um quê de musical na forma como algumas das canções — ou até mesmo trechos delas — narram o momento. (Aliás, algumas das músicas usadas no filme que não foram escritas para ele são de uma banda punk queer australiana chamada “Stabbitha and the Knifey Wifeys”).

Mas não se trata apenas de uma aventura espacial fantasiosa. Por trás do brilho, do glamour, das piadas e das brincadeiras, existe uma história sobre uma pessoa que ouviu a vida inteira que era inferior, que precisava mudar, que não era boa o suficiente. Saira está desesperada para reconquistar a ex, porque sente que é a primeira vez que alguém a escolheu de verdade. Mas será que ela conseguirá aprender a se escolher?

Embora personagens como Willow e as rainhas espaciais lésbicas merecessem algo mais digno do que o famoso “acabou porque sim”, e o final pareça ter sido montado no modo “acelerar 2x”, com subtramas sendo resolvidas como quem limpa a casa antes da visita chegar, “A Sapatona Galáctica” ainda entregar uma mensagem para o público: “vai lá, acredita em você, amor próprio é tudo”.

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