A Mulher no Jardim (por Casal Doug Kelly)

A Mulher no Jardim (The Woman In The Yard, 2025), longa-metragem estadunidense de suspense dramático, distribuído pela Universal Pictures, estreou, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 08 de maio de 2025, com classificação indicativa 16 anos e 88 minutos de duração.

Nos últimos anos, o terror tem se afastado da fórmula clássica dos monstros e assassinos para explorar medos mais íntimos — traumas, depressão, culpa — temas que antes apareciam de forma discreta, mas hoje ocupam o centro de muitas narrativas. “A Mulher no Jardim” entra justamente nessa leva. Apesar da divulgação sugerir um suspense sobrenatural tradicional, o que o filme oferece é algo mais introspectivo, com foco no sofrimento emocional da protagonista. Essa mudança pode frustrar quem espera sustos e reviravoltas no estilo jump scare, mas quem entra aberto à proposta provavelmente vai encontrar uma história com camadas.

O roteiro de Sam Stefanak foca em Ramona, vivida por Danielle Deadwyler, que tenta recomeçar com os dois filhos numa fazenda simples na Geórgia depois da morte do marido. A mudança, longe de trazer conforto, só agrava o desconforto. A vida no campo, o isolamento, a rotina desgastante e a pressão de cuidar dos filhos sozinha viram um peso imenso. A sensação é que o luto travou tudo ao redor — e quando uma mulher desconhecida surge, calada, sentada no gramado, essa presença silenciosa começa a mexer com a rotina de Ramona e com a sua percepção da realidade.

Deadwyler segura o filme praticamente sozinha. Muito do que entendemos da personagem vem pela forma como ela se movimenta, como olha, como evita certos assuntos. Tem uma cena em que ela mente para os filhos com um sorriso tenso no rosto, e outra em que o mais velho começa a perceber que as coisas não estão bem — são nesses momentos que o filme funciona melhor. O texto aposta mais na sugestão do que na explicação, o que traz força em alguns trechos, mas também acaba deixando temas relevantes pelo caminho. Questões como os dilemas da maternidade e o conflito entre o que Ramona sente e o que demonstra não são explorados como poderiam.

Há paralelos evidentes com “O Babadook (2014)”, sobretudo na ideia de um “invasor” que parece materializar o sofrimento interno da protagonista. Mas enquanto o filme de Jennifer Kent constrói esse conceito com consistência, “A Mulher no Jardim” fica no meio do caminho. A direção de Jaume Collet-Serra, conhecido por thrillers mais diretos como “Desconhecido” (2011) ou “A Órfã” (2009), tenta equilibrar o simbolismo com a tensão, mas o resultado é irregular. Ainda assim, há momentos em que ele consegue criar desconforto e clima, especialmente nas cenas com a mulher no jardim e nos momentos de dúvida da protagonista.

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O final deixa a situação de Ramona em aberto. Ela parece reencontrar alguma paz, mas uma assinatura invertida num papel — uma pista quase escondida — levanta a dúvida se aquilo é real ou apenas uma construção mental. O filme não responde, e isso funciona: as interpretações são muitas, e cada uma diz algo diferente sobre como lidamos com dor e luto. Seja encarado como metáfora ou como narrativa literal, “A Mulher no Jardim” não é sobre medo no sentido tradicional. É sobre desgaste, sobre ausência e sobre a dificuldade de seguir em frente quando o mundo já não parece o mesmo.

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